Mensagem de Quaresma do organismo católico propõe «ética do cuidado» face a predomínio do mercado e da especulação financeira

A Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), 0rganismo laical da Conferência Episcopal, alertou na sua mensagem para a Quaresma de 2015, que hoje se inicia, para os “enormes desequilíbrios sociais” que afetam os portugueses.

“O desemprego atinge dramaticamente a sociedade portuguesa criando exclusão a todos os níveis. A pobreza infantil não cessa de aumentar. O trabalho já não faz parte da identidade do ser-se homem ou mulher”, refere o texto, enviado à Agência ECCLESIA.

Partindo do cenário de crise financeira e económica, os membros da CNJP constatam que, “de ano a ano, as fortunas de alguns aumentam” face a “maiorias que não têm o essencial para viver”.

“As nossas sociedades produzem exclusões numa espiral sem fim”, lamenta o organismo católico, na reflexão intitulada ‘Da Globalização da Indiferença a uma Ética do Cuidado’, partindo de uma expressão do Papa Francisco

A “crise” dos mercados mundiais tem trazido “consequências a nível de desemprego, pobreza infantil, vulnerabilização da vida familiar, exclusão” e, segundo a CNJP, a sociedade portuguesa tem “vindo a assistir com alguma indiferença ao avolumar destes desequilíbrios”.

“Cerca de dois milhões de portugueses estão em situação de pobreza ou na iminência dela. Continuamos a ser pressionados pelas imposições do norte da Europa. Nunca como agora precisamos de coesão social”, adverte o documento.

Nesse sentido, o organismo católico propõe mudanças nas instituições governamentais, a nível nacional e internacional, no sentido de se orientarem para “uma proteção dos mais frágeis e vulneráveis ou mesmo excluídos, das minorias e dos grupos marginalizados”.

O texto deixa críticas ao “mundo misterioso dos mecanismos do ‘mercado”, das empresas e contas bancárias offshore, da especulação e das transações financeiras fictícias”, que representa “os interesses irresponsáveis de uma minoria”.

A CNJP alude ainda às “notícias do terror” que chegam de outros países, atingidos pela “fome, a ausência de condições de saúde e habitação, o atropelo aos direitos humanos mais básicos”.

“O terrorismo que invadiu a Europa também nos bate à porta e está a tornar-se nosso vizinho”, observam os membros desta comissão.

A mensagem de Quaresma deixa um conjunto de questões para a reflexão das comunidades católicas, incluindo perguntas sobre o acolhimento que recebem “aqueles que vivem nas periferias, sejam elas económicas, sociais, culturais, geográficas étnicas, religiosas, de orientação sexual ou outras”.

Os católicos são interrogados sobre a sua posição face ao subemprego, a exploração pelo trabalho, o acesso à saúde, a ecologia, a liberdade de educação ou o direito aos tempos livres, entre outros temas.

CR/Ecclesia