Pelo padre Marco Sérgio Tavares

Já foi há uns anos, porque as Páscoas são passagens velozes. Sempre o Nordeste…

Vivíamos uma crise sanitária de uma gripe qualquer que nos sujeitava a termómetros nos aeroportos, preenchimentos de boletins rosa nos aviões, tinas de desinfeção para o calçado às chegadas e sei lá mais o quê. Planos de contingência nos hospitais e centros de saúde. A morgue tinha sido transformada num lugar de rastreio e nesse contexto morreu-me o meu avô. Não cheguei a tempo nesse 31 de agosto. Encontrei o seu corpo, ainda quente, enrolado num lençol numa marquesa da garagem do centro de saúde. São os procedimentos… disseram-me. E abracei-me àquele corpo para o vestir porque o seu calor ainda existia… numa garagem…

As crises sanitárias levam sempre à formulação de planos, nem sempre humanos no sentido lato e restrito do termo. A comunicação social tem-se fartado de explorar, até de forma tétrica, a morte em tempos de covid-19. Crematórios, corpos em lençóis, valas, testagem em cadáveres, partidas sem despedidas, limitações de números, funerais sem missas, celebrações de palavra em tempo record, luvas, máscaras, despacho… a morte faz com que não haja o amanhã, não existe o porvir, já que a morte destrói todas as ilusões (Albert Camus).

Ao morrermos, somos todos estrangeiros no mundo. No entanto, “somos um corpo vivido”, existir é sermos um corpo vivo (Merleau-Ponty). Basta regressarmos à história comparada das religiões onde nos cerimoniais fúnebres do Paleolítico, na mumificação egípcia, na concepção grega da imortalidade, no judaísmo, no Cristianismo e no mais além islâmico, percebemos a dignidade do corpo humano até chegarmos aos mais de 129 discursos de São João Paulo II sobre a teologia do corpo.

Nunca o corpo foi tão cuidado como ultrajado. Nos relatos da Ressurreição, nós reparamos o carinho e a delicadeza para com o corpo de Jesus. Neste tempo Pascal que atravessamos é por demais urgente anunciar querigmaticamente que depois da vida vem a vida. Os cristãos têm a feliz e certeza ingénua de acreditarem na ressurreição dos mortos e da carne. Se os censos estatísticos na religião versassem sobre o tema não sei que análise sociológica mereceriam. Todos os nossos corpos terão horas sextas e noas. Nesse silencio horário dá-se a vida. Do resto cuidarão os que cá ficam.

A insanidade também chegou ao exagero da preocupação pelo cuidado sanitário. Até aos Açores. Aos nossos hospitais. Às nossas igrejas. Aos nossos cemitérios. Enquanto nos preocuparmos em Igreja por formarmos para a religiosidade popular (quando ela brota da espontaneidade da vida do povo e não dos ditames da Teologia Pastoral); termos um Conselho Presbiteral que pensará apenas em si ou orientações de caminhos que desembocarão em becos sem saída, profeticamente afrouxamos. É urgente, neste persistente pandémico, uma valorização do corpo e na forma como lidamos com o corpo, desde a mais alta autoridade de saúde, até ao agente funerário ou funcionário do cemitério.

Há muitas Conceição’s que não tiveram famílias presentes nas cidades da paz, ou Eduarda’s que tiveram cinco mulheres a espreitar na grade do cemitério, vendo de longe, parecendo o preceito judaico de não se contaminarem com os corpos na cruz; há anónimos, até com números trocados, embrulhados em lençóis, despachados à pressa por corredores, labirintos e elevadores dados ao seu contingente destino e, em todos esses sinais, o corpo tem a sua linguagem.

Valter Hugo Mãe no Homens imprudentemente poéticos, denomina os mortos de pessoas ubíquas, ou seja, omnipresentes, que podem estar em todos os lugares. Temo-los visto em todo o lado, em todo o mundo. Alguns já encontrei sozinhos, outros já vesti, e outros abracei porque eram meus… mesmo abandonados numa garagem de um centro de saúde.