Participantes admitem que relatório final vai deixar questões por resolver

 O presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família da Igreja Católica em Portugal, D. Antonino Dias, rejeitou um cenário de confronto no Sínodo dos Bispos que decorre no Vaticano, falando em “responsabilidade e seriedade” nos trabalhos.

“Não [é] o Sínodo de que alguma comunicação social fala, insinuando gigantescas e insuperáveis divisões entre os participantes. Esse, de facto, não é este Sínodo: aqui decorre o Sínodo que foi convocado pelo Santo Padre e no qual a Igreja inteira teve a possibilidade de participar”, escreve o bispo de Portalegre-Castelo Branco na sua mais recente reflexão sobre a assembleia, partilhada através das redes sociais.

O prelado é um dois delegados da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) na 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, juntamente com D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa.

Para D. Antonino Dias, a ausência de “diferenças e divergências” seria algo negativo, dado que “as culturas são diferentes e diferentes são as experiências de vida de cada continente, de cada país e até de cada Igreja Diocesana”.

“E mesmo que os fusíveis pudessem, de quando em vez, aquecer um pouco mais, não seria tendo em visto o receio de perder ou a vontade de ganhar. Tudo é colocado em cima da mesa com a única intenção de buscar a verdade e defender o primeiro e mais precioso património da humanidade: a família”, acrescentou.

Na conferência de imprensa de hoje, D. Mark Coleridge, arcebispo de Brisbane (Austrália), disse aos jornalistas que o trabalha “não acaba” no domingo, dia final deste assembleia sinodal, sublinhando que não existe fundamento para esperar qualquer mudança “no ensinamento da Igreja”.

“Temos necessidade de estar em contacto com a experiência humana”, evitando o “discurso eclesial abstrato”, afirmou ainda.

O prelado sublinhou, em relação aos divorciados que voltaram a casar civilmente, que “nem todos os casos são iguais”.

“O termo adultério é importante, por um lado, mas noutro sentido não diz o suficiente” sobre estas pessoas, observou.

Nesse sentido, o arcebispo australiano convidou a rejeitar uma abordagem de “tudo ou nada” que se limite ao acesso à Comunhão dos divorciados recasados.

“Há um vasto território que nos chama a uma nova criatividade pastoral”, precisou.

D. Fouad Twal, patriarca latino de Jerusalém, também deixou claro que será impossível dar uma resposta a “todos os problemas levantados” neste Sínodo

“É mais do que normal que tenhamos muitas questões na cabeça”, admitiu.

A este respeito, o patriarca confessou que muitos participantes ficaram sensibilizados quando se ouviu na sala o episódio da criança que partiu a sua hóstia em três, numa cerimónia de Primeira Comunhão, para a partilhar com os pais, divorciados recasados e, como tal, impedidos de comungar.

“Não podemos nunca generalizar, é melhor estudar caso a caso, voltando à Igreja local, ao bispo local que pode conhecer melhor a situação”, referiu depois D. Fouad Twal.

D. Enrico Solmi, bispo de Parma (Itália), também falou aos jornalistas e disse que espera que o Sínodo 2015 não seja “cosmético”, mas saiba “incidir sobre a vida da Igreja, colocando a família no lugar que a espera”.

O prelado valorizou a atitude de “escuta” durante os trabalhos e projetou a criação de percursos de “discernimento” para as várias situações que se vivem nas comunidades paroquiais.

Entretanto, o Papa Francisco abordou estas divergências sinodais no prefácio à obra do cardeal italiano, D. Carlo Maria Martini e considerou que a existência de vários pontos de vista sobre os mesmos temas, no seio da Igreja, é uma situação natural “quando se procura a vontade de Deus”.

“Há sempre pontos de vista diferentes e é necessário procurar espaços para escutar o Espírito Santo e permitir que ele atue profundamente, tal como o estamos a experimentar por ocasião dos Sínodos sobre a Família”, escreve, no prefácio do primeiro volume das obras completas do cardeal italiano D. Carlo Maria Martini (1927-2012), falecido arcebispo de Milão.

O prefácio ao livro dedicado às ‘Cátedras dos Não Crentes’ é publicado hoje pelo jornal italiano ‘Corriere della Sera’.

Francisco fala numa herança “preciosa” de alguém que “não pretendia fazer concessões a modas ou a pesquisas sociológicas”.

Segundo o Papa, o cardeal Martini propunha um debate “com liberdade, no pleno exercício da colegialidade episcopal, na escuta do Espírito e tendo em vista o bem comum da Igreja e de toda a humanidade”.

“Levantou o olhar para lá dos confins consolidados, favorecendo uma Igreja missionária em saída e não fechada em si mesma, fazendo emergir a mensagem universal do Evangelho, portadora de luz e de inspiração para todas as pessoas”, pode ler-se.

Segundo o Papa, a evocação do cardeal italiano pode ajudar a construir o futuro “num mundo tão marcado por forças desagregadoras e desumanizantes”.

 

CR/Ecclesia/Lusa