Por Carmo Rodeia

“Com Paciência tudo se alcança”. A frase não é minha. Pedi-a de empréstimo a Santa Teresa, nascida há 500 anos, de um poema lindíssimo, talvez um dos maiores hinos à paciência, onde nos recorda que nada nos deve perturbar, nem espantar… que tudo passa; Deus não muda e “quem a Deus tem, nada lhe falta: Só Deus Basta”.

É um poema que tem uma correspondência na liturgia das horas.“Passa o tempo e com ele as nossas vidas; tal como passa o bem, passa a desgraça, passam todas as coisas conhecidas… só o nome de Deus é que não passa”.

Vem isto a propósito da nossa fé e do que ela nos desperta na relação com Deus e com os homens. A questão não sendo nova, voltou a ser colocada por Cunha de Oliveira no passado sábado, aquando do lançamento do seu novo livro “Crer. Mas em quê?”.

Em síntese o teólogo, ao jeito conciliar, coloca mais perguntas do que apresenta respostas; análises que não são conclusões definitivas, apenas “correções fraternas”.

Ainda assim, não deixa de mostrar uma enorme e sentida apreensão pelo facto de hoje, a nossa fé, ser do dominio dos afectos e das sensações, mais do que da razão. Talvez porque hoje o que buscamos é mais do foro da espiritualidade, elaborada um pouco à maneira de um bem estar intimo, em que a fé se torna um assunto privado, sem grandes compromissos com os outros.

Sem querer dei comigo a pensar : será possivel conciliar um grande amor por Deus com um grande desinteresse pelos homens?

Hoje se olharmos para a nossa vidinha facilmente percebemos que sim. Muitos de nós dizemo-nos cristãos e todos os dias ignoramos o Evangelho. Teremos ficado mudos, cegos e surdos?

Jesus experimentou grandes dificuldades no relacionamento com os discípulos, desde logo porque dois deles revelavam uma ânsia pelo poder que criava rivalidades entre todos. E Jesus foi mesmo obrigado a intervir, como nos contou o Evangelho deste domingo: “entre vós quem quiser ser o primeiro coloque-se ao serviço de todos”. Apesar da resposta, Jesus não deixou de se preocupar com o assunto. Porque percebeu que esta era uma tentação real e evidente, embora sentisse que tinha que resolver o assunto, como se diz hoje, cortando o mal pela raíz.

Prometeu o Espírito Santo, Espírito de conversão permanente da Igreja, para que viva ao serviço de todos na oração, na fraternidade, na partilha dos bens.

Este é o regime em prática na Igreja quando não se atraiçoa. Perder esta consciência é a maior traição de todas. Porque, Igreja é um Nós, onde todos somos convidados a viver a amizade como um ministério.

Na Eucaristia vespertina em que participei este fim de semana, no sábado, o Pe Marco Bettencourt Gomes dizia, no seu estilo direto, “a igreja só precisa de quem está para servir” e não de “quem procura protagonismo ou servir-se”.

Regresso a Santa Teresa de Ávila, uma mulher dura na ação, emotiva e servidora, que soube cultivar a virtude da paciência. Para chegar a Deus e aos homens. Á paciência juntou a gratuitidade.

Santa Teresa, tal como São João da Cruz, falaram do verdadeiro amor, a Deus e aos homens. O que se vive em silêncio, na intimidade, sem exibicionismos.  Podemos exercitar este amor diariamente, por gestos e menos por palavras. Não é coisa que se faça de um dia para o outro. Temos de ser pacientes… e continuar a tentar, em vez de nos perdermos noutras contabilidades.