Cardeal-patriarca de Lisboa sublinha que prioridades dos trabalhos nem sempre coincidem com as dos media

O cardeal-patriarca de Lisboa disse à Rádio Vaticano que os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a família não têm o objetivo de colocar em causa “a doutrina e a tradição cristã sobre a família”.

“Antes pelo contrário, [o Sínodo] está a reavivá-la, a compreendê-la melhor, a apresentá-la a todos, porque com a compreensão que devemos ter com as mais diversas situações que existam, temos de corresponder a essas situações”, assinalou D. Manuel Clemente.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) sublinha a “grande afinidade” com a mensagem que o Papa tem vindo a deixar, com intervenções na vigília de oração e na Missa que marcaram o início do Sínodo, no sábado e domingo, para além dos discursos nas reuniões gerais de segunda e terça-feira.

“[O Papa] disse-nos “a doutrina não está em causa e eu sou o primeiro garante dela”. O que nós percebemos é que há o nosso trabalho aqui e depois também há os media e as suas prioridades e as suas perspetivas que não coincidem. Mas nós estamos aqui para fazer o nosso Sínodo e não o Sínodo dos media”, advertiu.

O cardeal-patriarca assinala a importância do reforço do papel da família nas comunidades cristãs.

“Trata-se de radicar, cada vez mais, a nossa proposta sobre a família, contando muitíssimo com a experiência das famílias cristãs, dando essa mesma resposta às problemáticas que se põem”, precisa D. Manuel Clemente, um dos delegados da CEP, juntamente com D. Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco.

O presidente da CEP elogia o espaço dado aos trabalhos de grupo nos chamados ‘círculos menores’ (13 sessões ao longo de três semanas), com a possibilidade de “falar e intervir”, ouvindo “padres sinodais, auditores, também leigos e casais”.

“Passarmos dias seguidos em congregações gerais em que se sucedem dezenas de intervenções não é a melhor maneira de progredirmos na reflexão”, admitiu.

D. Manuel Clemente espera que a abordagem “pastoral” do Sínodo ajude a dar “alento e mais projeção àquilo que é a experiência concreta de famílias que, com as dificuldades que todas as outras famílias também têm, levam por diante a proposta de Jesus Cristo sobre a família”.

Entretanto, na habitual conferência de imprensa, no final dos trabalhos do Sínodo, o arcebispo de Filadélfia (EUA) confirmou hoje que o Papa alertou os participantes no Sínodo dos Bispos para a criação de um clima de “conspiração” que prejudicaria o debate sobre a família.

“Devemos evitar pensar nos outros como alguém que conspira contra nós, mas trabalhar pela unidade entre os bispos”, disse D. Charles Chaput, em conferência de imprensa, citando o apelo de Francisco aos participantes na assembleia sinodal.

O prelado norte-americano respondia a uma pergunta sobre um alerta do Papa para a “hermenêutica conspirativa”, expressão divulgada esta terça-feira através das redes sociais pelo jesuíta António Spadaro, que participa no Sínodo.

D. Laurent Ulrich, arcebispo de Lille (França), outro dos participantes na conferência de imprensa desta tarde, sublinhou que no Sínodo “cada um diz e pensa como entende” tendo em vista um “trabalho comum”.

“O Papa pediu-nos para estarmos atentos e salvaguardarmos a serenidade do debate entre nós”, assinalou.

D. Salvador Piñeiro, arcebispo de Ayacucho (Peru), resumiu este apelo de Francisco numa frase: “Falar com toda a liberdade e ouvir com toda a humildade”.

A divergência de opiniões é vista como algo natural pelo arcebispo de Filadélfia, o qual disse mesmo que “nunca” esteve numa reunião da Igreja sem grupos que se juntassem para “fazer lóbi numa direção em particular”.

“Não devemos ficar escandalizados ou surpreendidos”, prosseguiu D. Charles Chaput, destacando a importância da “honestidade” neste debate.

O responsável, que acolheu em finais de setembro o 8.º Encontro Mundial das Famílias (EMF), com a participação do Papa, convidou os católicos a “confiar que Deus guia a sua Igreja”.

“Não estamos aqui [no Sínodo] para ganhar alguma coisa, estamos aqui para chegar à Verdade que o Senhor estabeleceu para a sua Igreja”, realçou.

O arcebispo observou que os trabalhos desta assembleia, na sequência da reunião extraordinária de 2014, têm procurado encontrar uma linguagem que “acolha” e não abra feridas nas pessoas, em fidelidade à doutrina católica.

No mesmo sentido, D. Laurent Ulrich fez questão de ressalvar que “não está em discussão a doutrina da Igreja, mas a maneira de a viver no dia-a-dia, na relação pastoral”.

Já D. Salvador Piñeiro, presidente da Conferência Episcopal Peruana, apontou o dedo a um discurso de “duas caras” da sociedade, que por um lado proclama a crença na família como “célula fundamental” mas por outro aprova leis que facilitam “o divórcio” e “o aborto”.

D. Charles Chaput observou, por sua vez, que os participantes nesta assembleia sinodal têm procurado sublinhar a importância do ensinamento da Igreja sobre a família, com atenção às “99 ovelhas” que o colocam em prática e não apenas “à ovelha perdida”, em referência a uma das parábolas de Jesus apresentadas nos Evangelhos.

Outra das preocupações é refletir uma visão “universal” e não só do Ocidente sobre a família.

Os participantes no Sínodo dos Bispos estão a trabalhar nos chamados ‘círculos menores’, grupos linguísticos que promovem o debate fora das chamadas ‘congregações gerais’.

Durante o encontro com jornalistas, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, reafirmou que os membros da assembleia são “livres” para falar à imprensa ou publicar os seus discursos, mesmo que a sala de imprensa da Santa Sé não o faça.

CR/Ecclesia