Por Renato Moura

“Só sei que nada sei” é um pensamento atribuído ao filósofo Sócrates.

Talvez não precisaremos assumir a humildade de nada sabermos; mas, retendo de Sócrates, muito teríamos a ganhar arcando a modéstia de nos convencer que quando empreendemos, ou participamos, não sabemos tudo. Mesmo tendo aprendido muito, olhando-nos, facilmente percebemos haver ainda imenso para descobrir.

A discussão não pode ser entendida como uma briga agressiva e injuriosa; mesmo sendo controversa e polémica, acalorada e atingindo um tom alto, pode ser um diálogo útil, um debate sobre um tema ou uma opinião, tendo em vista uma conclusão profícua. Dou testemunho de ter obtido muito proveito dos diálogos, ainda que inflamados, com pessoas com quem trabalhei; e aprendi muito nas consultas a colaboradores sobre temas para os quais estariam menos qualificadas.

Se há locais onde o diálogo não é uma faculdade, mas um dever, é nos órgãos colegiais, onde se impõe uma decisão colectiva. É evidentemente muito mais fácil e cómodo abanar a cabeça a quem preside ou coordena o órgão. E é preciso ter capacidade para argumentar e coragem para divergir, principalmente se quem está acima é, como se costuma dizer, “muito senhor do seu nariz”. Porém é precisamente nestas situações que o uso da liberdade impõe sinceridade e a verdade é imprescindível. Quem contesta tem de se assumir, pois até as verdades geram caos!

Corre-se o risco de ceder ao egoísmo de uma paz, mesmo que seja podre, sobretudo quando a permanência nos lugares garante dinheiro, vantagens ou honrarias. A coragem de intervir nos órgãos nos quais se participa, sejam eles políticos, comunitários ou religiosos, procurando aperfeiçoar os rumos ou corrigir os erros, agradará sempre a quem não tenha espírito de ditador. Dos erros aprende-se para o futuro.

O Papa Francisco, num encontro com jovens, em Março de 2014, teve a humildade de confessar e ensinar: “Penso que os erros, também os da minha vida, foram e são grandes mestres da vida (…) e isso fez-me um grande bem”.

Esta semana prestou-se, finalmente, a justa homenagem e consagração possível ao ex-cônsul Aristides de Sousa Mendes. Ele deixou o extraordinário exemplo de coragem, em plena ditadura, desobedecer e salvar da morte muitos milhares de pessoas, cumprindo um dever de consciência. Que, em democracia, a ninguém falte, pelo menos, a coragem de obedecer aos deveres das funções nas quais estivermos investidos: exorcizando medos; prescindindo do nosso proveito; fazendo luz; servindo quem necessita da nossa coragem.