Por Carmo Rodeia

Durante a história da humanidade, diversos povos eliminaram pessoas que nasciam com deficiência, com má-formação e também pessoas doentes.

Em 1883 nasceu o termo `eugenia´, criado por Francis Galton, que o definiu como o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente.

Em diversos países foram propostas políticas de “higiene e profilaxia social”, com o objetivo de impedir a reprodução de pessoas que possuíam doenças consideradas hereditárias e, também, exterminar portadores de problemas físicos e mentais. Um exemplo extremo de eugenia foi o holocausto. Mas houve outros, como o totalitarismo estalinista, por outros motivos.

Esta semana, o Senado Polaco aprovou o diploma que prevê, entre outras medidas, até três anos de prisão ou uma multa para quem utilize a expressão “campos da morte polacos” para denominar os campos de extermínio erguidos no país pelo regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial.

Estimativas oficiais apontam para que seis milhões de pessoas tenham perdido a vida durante a ocupação Nazi em campos de concentração, guetos e noutras circunstâncias. Metade dessas pessoas eram judeus.

A lei está a ser contestada pelos partidos de oposição e pelo Estado de Israel, que acusam Varsóvia de “querer reescrever a história”, ameaçando ao mesmo tempo a liberdade de expressão.

Adocicar expressões ou omitir verdades é quase tão mau como negar a verdade.

O alcance da lei do holocausto, que o presidente polaco se prepara para publicar, até pode estar a ser mal compreendido e deturpado, pois expressões como ‘campos da morte polacos’ são imprecisas, suscetíveis de induzir a erros e causar feridas, mas até que ponto é  que se for promulgado o diploma afetará não só  a liberdade de expressão mas o próprio debate histórico? Que é cada vez mais urgente?

Os campos existiram. Os nazis foram implacáveis. Mas os polacos também foram passivos.

Os estudantes polacos, tal como todos os estudantes europeus, deveriam ser confrontados com a história do século XX. Nua e crua, para terem consciência da maldade do homem e de que esta maldade não tem limites. Na Alemanha, na Polónia ou na Rússia, onde também morreram milhões de pessoas vítimas do totalitarismo estalinista.

Há livros que se deveriam tornar obrigatórios, como o Arquipélago Gulag de Soljenitsin e filmes cujo visionamento deveria ser parte do estudo de milhares de alunos como a Lista de Schindler, de Spielberg ou o Pianista, de Polanski. Hoje, a realidade que retratam é de uma proximidade aterradora.

Maquiavel afirmava que uma comparação entre factos antigos e contemporâneos, de modo a facilitar a sua compreensão, é imprescindível e o único meio para se evitar cometer os mesmos erros de sempre.

Na Polónia, tal como noutros países, há verdades que têm de ser ensinadas com os verdadeiros nomes e para além do silêncio, sob pena de além de destruirmos a verdade destruirmos a verdade enquanto conceito moral.

Adocicar a história pode ser o primeiro passo para isso. O que é que me está a escapar?!…Vou estar mais atenta a este lado da Europa.