Por Carmo Rodeia

Cada eleição que acontece na Europa, ou no mundo ocidental, começa a ser uma verdadeira dor de cabeça e a Democracia entra em sobressalto, o que não deixa de ser contraditório senão até mesmo ridículo.

A democracia representativa assenta na soberania popular, manifestada através de eleições regulares e extraordinárias. Até aqui nada de novo nem de especial. O problema acontece justamente com uma espécie de terceiro pilar do conceito de democracia e que está particularmente doente: a competência e o sentido de decência dos representantes eleitos.

E a deriva atual, que tem possibilitado a ascensão de grupos e políticos populistas, não é uma ameaça para o futuro mas sim uma governação do presente, que nos ameaça justamente hoje. Da Europa à América. A demagogia tomou conta do estado da nação. Do lado dos políticos e, de forma obcecada, do lado dos eleitores, seduzidos pela demagogia. Os alvos são conhecidos: os imigrantes, as minorias, em suma os mais frágeis.

 

Vem isto a propósito dos sucessivos atos eleitorais que têm marcado o mundo e trazido para os órgãos de decisão gente populista que não vê para além do seu umbigo e contagia todos os umbigos adormecidos, sem que os arautos da democracia consigam fazer um contraponto inteligente e sirvam de freio à ascensão desses novos caudilhos.

 

Se é certo que muito do seu crédito vem de posições demagógicas, não é mais incorreta a leitura de que o triunfo dessa demagogia se deve também ao facto dos ditos democratas estarem razoavelmente nas tintas para os problemas de milhares e milhares de pessoas que, por uma razão ou outra, precisariam de uma atenção diferente.

Ignorar a situação frágil dos locais é um erro. Não perceber que os que chegam , apesar da sua vulnerabilidade, constituem aos olhos dos que estão uma ameaça, é varrer para baixo do tapete um problema que depois desemboca nos resultados eleitorais que temos visto nos EUA e na Europa.

Não perceber que os povos europeus, e dentro destes os sectores mais vulneráveis, vêem tudo isto como um factor de insegurança é um erro que vários políticos têm pago caro. Agora foi a vez da chanceler alemã  Angela Merkel.

Em março deste ano, numa entrevista publicada pelo semanário alemão ‘Die Zeit’, o Papa Francisco alertava e denunciava os males do populismo.

“O populismo é mau e no final acaba mal, como no-lo mostra o século passado”.

Na entrevista ao ‘Die Zeit’, o Papa recordva a ascensão ao poder de Adolf Hitler nos anos 30 do século XX.

“A Alemanha estava desesperada, a crise económica de 30 era… e um jovem disse ‘eu posso, eu posso, eu posso’. Chamava-se Adolf, e isto acabou assim, não?  Conseguiu convencer o povo de que ele podia. Por trás dos populismos existe sempre um messianismo, sempre. É também uma justificação: preservar a identidade do povo”, alertou.

Francisco aludiu a figuras como Schuman o Adenauer, os “grandes do pós-guerra” que imaginaram a unidade europeia, com uma ideia “não populista”.

“Imaginaram uma fraternidade de toda a Europa, do Atlântico aos Urais. E estes são os grandes líderes – os grandes líderes – que são capazes de levar em frente o bem do país, sem estarem eles no centro. Sem serem messias”, observou.

Acho que Donald Trump e outros trumpistas europeus nunca pensaram nisto. Nem podiam. A inteligência não dá para mais…do que a demagogia, legitimada pelo voto popular.