Por Renato Moura


Marcelo Rebelo de Sousa apontou a sua expectativa de abstenção, nas eleições para o Parlamento Europeu, em 75 a 80%! Assim ficou fácil considerar positivo que a abstenção se ficasse por 69% e isso se considerasse uma “opção perfeitamente legítima” dos portugueses “que escolheram não escolher”! Bem sabendo que já se tornou, pelo menos deselegante, discordar do Presidente da República, assumo afirmar que a compreensão – mais do que isso a cobertura – dada ao fenómeno, não contribui para o exercício futuro do dever de votar e é por isso profundamente infeliz e reprovável.
Ninguém em Portugal se pode satisfazer com 31% de votantes, perante os 51% da média europeia; como não se pode usar a percentagem para justificar o inexplicável.
Os partidos, na generalidade, gostem ou não, terão de aceitar que não explicaram os seus projectos e ideias para a Europa – se é que os tinham –, nem as diferenças entre uns e outros; embarcaram na avaliação nacional do Governo; ainda que com honrosas excepções, proliferaram os ataques pessoais; construíram-se agendas de campanha só para os telejornais, com muitos jornalistas limitados a aceitaram a comodidade da boleia!
Já se pensou e avaliou até que ponto as greves e as lutas dos professores influenciaram os resultados, seja pela positiva ou negativa?
Houve quem se admirasse de as pessoas não conhecerem os candidatos, nem sequer saberem o nome dos que estão a apoiar nas ruas! Onde está a novidade? Será que à beira do fim da legislatura os cidadãos sabem quem são os deputados pelo seu círculo eleitoral? E num universo pequeno como o dos Açores, saberão quem são os deputados eleitos pelo seu partido no Parlamento Regional e que trabalho fizeram os eleitos pela sua ilha?
No fim os números esticam e encolhem-se ao jeito da fundamentação de contendores e analistas: 33% eleva-se a grande vitória e 32% é poucochinho; 22% é arvorado a crescimento na comparação com um número indefinido, mas uma miséria no confronto com os adversários; 6% fica ainda menor quando se embandeirou em arco com o objectivo de vencer eleições; mas 5% é bastante – quando garantiu 1 em 21 – embora a mesma percentagem não cauciona por si só muitos, como alguns já vaticinam, nos 250 de Outubro.
Distorcer números não altera a realidade; e se servir para iludir as pessoas, é imoral.
O que figura agora como principal projecto europeu? No xadrez multicolor, com os votos dos peões na algibeira, já as torres se movimentam para que os seus partidos assegurem reis e rainhas nas grandes instituições!