Bispo de Angra completa esta terça feira 19 anos de episcopado na diocese mais dispersa do país

“Um homem do povo”, “próximo”, “humilde”, “atento e atencioso”; a “melhor porta aberta da igreja nos Açores”, são algumas da expressões manifestadas espontaneamente ao Sítio Igreja Açores por padres e leigos no dia em que se assinala o 19º aniversário do episcopado de D. António de Sousa Braga.

Aos 74 anos de idade e, depois de uma doença oncológica súbita, que o conduziu a uma cirurgia ao pulmão, D. António de Sousa Braga encontra-se neste momento hospitalizado mas o seu estado de saúde evolui de forma “muito favorável”, permanecendo no hospital do Santo Espírito, na ilha Terceira, “apenas para observação e realização de exames complementares de diagnóstico”.

O bispo açoriano é natural de Santa Maria, estudou desde os 13 anos fora da região, primeiro no Funchal, depois em Coimbra e finalmente em Roma, onde foi ordenado sacerdote em 1970 pelo Beato Paulo VI. Só regressou aos Açores, para residir permanentemente no arquipélago há 19 anos, quando foi ordenado Bispo.

“Foi difícil, desde logo porque eu nem conhecia as ilhas todas. Tive de percorre-las e perceber onde estava. Tive a sorte de herdar um plano de ação pastoral mas encontrei muitas dificuldades para o implementar desde logo ao nível organizativo mas também por causa de questões financeiras”, disse D. António de Sousa Braga, numa entrevista recente ao Sítio Igreja Açores.

“Quando cheguei procurei reconhecer um terreno difícil e disperso. Foi, sem dúvida, a minha prioridade e não estou arrependido. Além de me aproximar das pessoas, conheci o terreno e conheço bem o clero diocesano e sempre me senti muito apoiado por ele”, adianta ainda.

“Naturalmente que nem sempre fazemos tudo certo e quando olhamos para trás percebemos que nem sempre avaliámos bem todas as situações”, reconhece D. António de Sousa Braga que salienta “que procurou sempre agir da melhor maneira possível”.

E é esta “humildade”, a par de uma “enorme proximidade” que é destacada pela totalidade das pessoas questionada pelo Sítio Igreja Açores.

“É um homem do povo, que se dá bem com as pessoas, independentemente da sua condição social e só isso faz com que todos passemos ao lado dos problemas da diocese” disse o Pe Hélder Cosme, um dos 54 sacerdotes ordenados por D. António de Sousa Braga que atualmente paroqueia em São Roque , na ilha de São Miguel.

“Pela sua permanente disponibilidade, humanidade e proximidade sempre foi a melhor porta aberta na igreja dos Açores”, conclui o sacerdote sublinhando que transportou para o seu episcopado o verdadeiro sentido “de pastor, de padre, de alguém que tem de estar sempre próximo das pessoas”.

É também esta a característica destacada pelo coordenador do Movimento de Romeiros de São Miguel.

“Sempre permitiu uma enorme proximidade revelando uma atenção permanente com todos os seus colaboradores, tendo sido um verdadeiro pai para os sacerdotes”, diz João Carlos Leite lembrando no entanto, que “apenas pecou, se assim se pode falar, por não ter imposto mais a sua autoridade nalgumas situações e isso acabou por lhe dificultar a vida nalguns casos porque as pessoas não souberam respeitar essa proximidade”.

“O sentido paternal do Senhor Bispo é enorme e ele não se cansa de o demonstrar junto de todos nós, nos mais simples gestos” refere o Pe João Pires, dos Altares, na ilha Terceira.

“É uma pessoa muito calorosa. Costumo dizer que o importante não é fazer coisas extraordinárias mas fazer extraordinariamente bem coisas simples que podem não ter aquele efeito e aquela visibilidade mas que são essenciais e desse ponto de vista, o D. António fá-lo como ninguém”, remata o sacerdote.

 

O inicio do Episcopado de D. António de Sousa Braga acabou por coincidir com uma mudança de ciclo político nos Açores, em outubro de 96. Dois anos depois, e com algumas dificuldades financeiras pelo meio, a diocese iria sofrer um duro golpe com um sismo que destruiu grande parte dos templos das ilhas do Faial e do Pico, obrigando à sua reconstrução.

A “capacidade de diálogo” que lhe é reconhecida por muitos dos seus padres valeu-lhe a abertura de portas para resolver alguns problemas, embora muitas vezes incompreendido.

“Sempre esteve do nosso lado e sempre sentimos isso”, disse, por outro lado, o Pe José Escobar, da paróquia do Salão, na ilha do Faial, uma das afetadas pelo sismo de 98.

“É um homem devidamente enquadrado na nossa diocese e o seu bom conselho ajudou-nos a resolver alguns assuntos”, salienta o sacerdote.

“É um homem muito próximo, sem distâncias impostas pela a autoridade e muito envolvido no dia a dia”, refere por sua vez o Pároco da Serreta, Cónego Manuel Carlos.

“Além de pastor, de pai, de profeta tem sido um guia, o que não é fácil numa diocese tão dispersa quanto esta” refere o Pe Jorge Mendonça, pároco em Santa Luzia, Angra do Heroísmo, destacando “ a excecional simplicidade” e a tendência para uma pastoral social “muito assertiva”, o que “está naturalmente condicionado pela sua formação em sociologia”.

Uma proximidade às pessoas “e às instituições” acrescenta Anabela Borba, diretora da Cáritas diocesana.

“Destacaria do D. António o facto de ser um homem que promove uma relação muito informal, simples e sadia, sempre com um grande empenho na resolução de problemas sociais”, refere a dirigente que sublinha a capacidade “de ouvir todos com uma grande abertura e informalidade”.

“Ele sempre se preocupou com o facto da igreja ser uma resposta presente e ativa em todas as ilhas e embora isso ainda não seja uma realidade plenamente conseguida não pode deixar de ser salientado esse seu esforço e atenção permanente”, diz.

“Lembro-me quando fui ordenado de me perguntar a minha opinião sobre as paróquias que poderia servir e isso não me parece que seja frequente”, disse o Pe Ruben Pacheco, o 52º sacerdote a ser ordenado na diocese e um dos mais novos em termos de idade, atualmente a paroquiar em São Jorge.

“Sem dúvida que tornou o episcopado mais próximo das pessoas; as vezes até demais porque se calhar com a sua humanidade acabou por facilitar alguns abusos”, diz por outro lado o pároco das Lajes do Pico, Pe João Bettencourt das Neves que foi Secretário de D. Aurélio Granada Escudeiro.

“Tem feito um trabalho muito inspirado pelo Espirito Santo”, refere por sua vez a responsável diocesana pelo Movimento dos Cursilhos de Cristandade.

“É uma pessoa do povo que gosta de estar no meio de nós e tem feito destas ilhas um espaço de amor e isso faz-nos bem, sobretudo num tempo de grandes dificuldades , ele tem aberto a Igreja” refere Benvinda Borges.

Recentemente, na entrevista ao Sítio Igreja Açores, admitia que “Nós somos ordenados sacerdotes não aprendemos nem temos nenhum curso para sermos bispos; vamos aprendendo com a função e foi isso que eu fiz, debaixo de uma enorme exigência, sobretudo financeira”.

Questionado sobre se haveria alguma decisão que tivesse tomado e da qual se tivesse arrependido, o Bispo de Angra admitiu que à posteriori “tudo é passível de correção e obviamente que nem tudo foi bem feito”.

Entre notas pastorais e mensagens, há uma ideia que passa sempre em todas elas e especialmente dirigida ao seu clero: o ministério sacerdotal deve ser encarado como  um “instrumento de misericórdia divina” e uma forma de levar ao mundo a “proximidade” de Deus. E, por isso, “não basta fazer coisas pelas pessoas”; “há que ir ao seu encontro, pôr-se no seu lugar; fazer como Jesus que revelou o Pai misericordioso através das suas palavras e dos seus gestos”.

Convidou todos os padres a assumirem “dinamismo missionário”, de “chegar a todos sem exceção”, com atenção especial aos que estão mais à margem da sociedade, privilegiando a “preparação” do seu trabalho pastoral, em vez das tarefas administrativas. Pediu-lhes, ainda,  que fossem “ousados e criativos” no cumprimento da sua missão, sem contudo caírem em “exibicionismos”, nem na tentação “de serem funcionários do sagrado”.

Já este ano, e durante a posse do Cabido Catedralício da Sé de Angra, cujos estatutos renovou, após 15 anos de inatividade do Cabido, D. António de Sousa Braga pediu aos nomeados para “servirem a igreja” num clima “de unidade” para “construírem comum-unidade” entre as ilhas, apontando a igreja como a primeira instituição autonómica dos Açores, uma “identidade que deve ser preservada”.

“Num território descontínuo, como a nossa diocese, urge desenvolver a Unidade Pastoral Ilha, sempre com o apoio da  Igreja-Mãe, que é a Sé Catedral, não para centralizar, mas promover a unidade na diversidade”, disse na altura.

Sobre os Açores, e em particular a situação da região no contexto da crise mundial e europeia, D. António de Sousa Braga não se cansou de afirmar, ao longo do seu episcopado, que “estamos longe dos patamares europeus de desenvolvimento e temos algum nível de pobreza, que se complica um pouco com a austeridade”.

Muitos idosos “recebem reformas baixas”, o que os obriga a optar entre “diminuírem nos remédios ou na alimentação”; mostrou-se apreensivo em relação aos “grupos de crianças e jovens e risco oriundos de famílias desestruturadas”, que passam por carências do “ponto de vista material e educativo” e requerem “grande apoio da Igreja e do Governo”, para concluir que “Vivemos numa região ultraperiférica que luta pelo seu desenvolvimento sustentável” e as “as comunidades cristãs devem ser as primeiras a dar resposta às carências sociais e a mobilizarem as pessoas para a solidariedade”.

Para o futuro deixa uma mensagem de otimismo: o importante, diz o responsável pela Igreja Católica nos Açores é que “não nos desencorajemos de prosseguir este trabalho que desde o inicio sabíamos que era difícil e possivelmente doloroso, em certa medida, até para a própria igreja diocesana”.

O próximo ano será marcado pelo Encontro Mundial das Famílias e pelo Sínodo; haverá também uma carta pós sinodal e isso vai fazer, diz o Bispo de Angra, com que a família volte a ser um dos temas do ano.

“Temos de olhar para as famílias e perceber que hoje muitas delas constituem uma periferia e nós temos o dever de apoiar sobretudo as crianças dessas famílias ou porque as seguimos na escola ou porque elas estão na catequese”, diz  D. António Sousa Braga reforçando a ideia de que “através dos filhos podemos chegar aos pais”.

“Nós temos as crianças na mão; temos de as envolver nas comunidades pois de outra forma ficamos com uma catequese teórica sem consequência na ação ou expressão na comunidade porque os jovens acabam o seu percurso e afastam-se da igreja”, disse ainda o Bispo de Angra.

A “isto se chama passar de uma igreja clerical para uma igreja ministerial, com mais leigos e, sobretudo, com mais leigos bem formados”.

“Espero que as comunidades se esforcem para utilizarem os meios necessários para desenvolver uma pastoral familiar, indo ao encontro das pessoas, promovendo uma verdadeira  conversão pastoral e missionária que não pode deixar as coisas como estão”, conclui.

A diocese de Angra assinala a data do aniversário dos 19 anos de episcopado de D. António de Sousa Braga com uma celebração na Sé, e todas as missas nas diferentes paróquias serão em intenção do Bispo de Angra.