Dirigente da Pastoral familiar em Coimbra lembra que a família precisa ser “defendida”

Jorge Cotovio está nos Açores, a partir desta quarta feira,  para orientar uma série de formações destinadas a agentes da pastoral familiar, numa iniciativa promovida pelos responsáveis desta pastoral, na Diocese de Angra. Engenheiro de formação, e doutor em Ciências da Educação preside atualmente à Associação Portuguesa de Escolas Católicas, sendo Diretor do Colégio Conciliar de Maria Imaculada, na Cruz da Areia, em Leiria.

Em entrevista ao Sítio Igreja Açores lembra que é “urgente” apostar na família, mas para isso ela própria tem que se reposicionar. E alerta para a necessidade de um apoio mais concreto e efetivo ao desenvolvimento de uma dimensão emocional e afetiva do casal.

 

 

Sítio Igreja Açores- Vem aos Açores fazer uma conferência sobre a Família, no âmbito da formação desenvolvida pelo Serviço Diocesano da Pastoral familiar. Vai fazer três conferências. Que mensagem gostaria que ficasse desse trabalho?

Jorge Cotovio- Como irei falar especialmente para casais que já trabalham na pastoral familiar, gostaria que eles reconhecessem a urgência em apostarmos na família. Se atingirmos a família, atingimos todos os seus membros. Se tivermos pais bem formados, é maior a probabilidade de termos filhos bem educados, no amor e na fé. Se tivermos filhos despertos para os valores da fé e da cidadania, mais probabilidades haverá de virmos depois a ter casais e famílias bem constituídas, assim como vocações consagradas.

A pastoral da família é, pois, uma pastoral fundamental, que atravessa todas as outras pastorais.

 

Sítio Igreja Açores- Vem numa altura em que a família está nos headlines das notícias, com o Encontro Mundial de Filadélfia e o Sínodo. Que Expetativas tem relativamente a estes dois momentos?

Jorge Cotovio- As minhas expetativas são elevadas. Toda esta dinâmica vai ajudar a renovar a Igreja em variados âmbitos, tais como, relembrar a extrema importância da família na sociedade e na Igreja, valorizar a doutrina do Magistério da Igreja sobre a família (Evangelho da Família), estimular os casais cristãos a testemunharem a beleza e a alegria de viver em família, mesmo no meio das dificuldades, acolher e encontrar vias de solução para as situações pastorais difíceis, designadamente os divorciados recasados. Por último, espero sinceramente que toda esta dinâmica estimule as dioceses a apostarem com ardor renovado na pastoral da família.

Mas tenhamos bem presentes que o fundamental é o nosso entusiasmo nesta missão de evangelizar as famílias. Por mais orientações que venham, se não existir em nós esta “fé”, esta convicção de que, com o auxílio de Deus, conseguimos, nada feito…

 

Sítio Igreja Açores- Portugal tem uma representação muito diminuta no Encontro Mundial. Isso poderá prejudicar, de alguma forma, a receção da mensagem por parte das famílias portuguesas?

Jorge Cotovio- De forma alguma. Hoje a informação circula por tantas vias que não são necessárias testemunhas presenciais… Hoje estamos facilmente presentes nos acontecimentos, mesmo sem lá estarmos fisicamente. Creio que será suficiente a divulgação feita pela comunicação social da Igreja, assim como os testemunhos da delegação portuguesa, liderada pelo Sr. D. Antonino, presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família.

 

Sítio Igreja Açores- Deste Encontro Mundial podem sair orientações concretas que influenciem o Sínodo?

Jorge Cotovio– Penso que sim. Não terá sido por acaso que este encontro precede o Sínodo. As largas dezenas de intervenções (quase 100!), a maioria das quais proferidas por leigos, alguns dos quais não católicos, abrangendo temas tão diversos, vão, certamente, influenciar os trabalhos do Sínodo.

 

Sítio Igreja Açores- Passou um ano sobre a Assembleia Extraordinária de Bispos. Foi lançado um livro onde 11 cardeais defendem o matrimónio e a família. Tem havido muitas achegas nomeadamente depois da segunda auscultação às dioceses. O que espera desta reunião de outubro?

Jorge Cotovio- Haverá, certamente, opiniões divergentes, especialmente no tocante às situações pastorais difíceis, tais como as convivências, as uniões de facto, os separados, os divorciados e divorciados recasados, as mães solteiras, não-praticantes e não-crentes que pedem o matrimónio, as famílias constituídas por homossexuais, etc. Creio que a questão “fraturante” mais polémica será o possível acesso aos sacramentos da confissão e comunhão dos divorciados recasados.

Mas como Sínodo significa “caminhar em conjunto”, acredito que o Espírito Santo há de iluminar as mentes dos participantes, de forma a serem alcançados consensos “não fraturantes”, sem ferir a doutrina do Magistério da Igreja e o Evangelho.

 

Sítio Igreja Açores- Que mensagem deve levar a igreja portuguesa para o Sínodo?

Jorge Cotovio- Uma mensagem de esperança. Este Sínodo irá, indubitavelmente, contribuir para termos uma Igreja mais aberta, mais abrangente, mais próxima das “periferias”, procurando envolver e atrair quem se sente marginalizado e até “condenado”. Teremos, certamente, uma Igreja mais “acidentada”, mas não é isto que o Espírito Santo tem inspirado o nosso Papa?

 

Sítio Igreja Açores-Estas reuniões – a do ano passado e a deste ano- são importantes porque se ouvem leigos… famílias. Que peso é que elas terão no documento final?

Jorge Cotovio- Apesar do muito apreço que se vai tendo para com os leigos, penso que, infelizmente, eles ainda terão pouco peso nas decisões. A Igreja continua muito clerical e os leigos ainda não se afirmaram. O “sacerdócio comum”, que é uma exigência que advém do Batismo, ainda não é suficientemente valorizado, nem por leigos nem pelos consagrados. E é pena. Os sinais dos tempos alertam, há muito, para a necessidade urgente de se “acreditar” na riqueza da vocação laical.

 

Sítio Igreja Açores- A Família hoje não se resume a um modelo, mas pode em cada um dos casos ser uma comunidade de amor. A Instituição Igreja está preparada para acolher estas novas formas de família e reconhecê-las como tal?

Jorge Cotovio– A família, “definida” pelo Concílio, é “comunidade de vida e amor”. Não basta a “comunidade de amor”. Se faltar a abertura à vida (como é caso de famílias de homossexuais ou “convivências” heterossexuais que recusem a procriação), já não estamos perante uma “família”… O nosso modelo deve ser a Sagrada Família de Nazaré.

Se as uniões de facto ou os casamentos somente pelo civil poderão ser um tema pacífico, já outros modelos devem ser respeitados, mas não creio que a Igreja alguma vez os considere como “famílias”. Aceitação e respeito não são sinónimos de concordância…

 

Sítio Igreja Açores- A família é comummente definida como a Igreja doméstica. Estará mesmo a funcionar assim?

Jorge Cotovio- Nas famílias “ateias” ou cristãs não praticantes, claro que não. Nas restantes, ou seja, nas famílias “cristãs”, penso que são poucas as que se consideram “pequeninas Igrejas”. E por isso temos cada vez menos “praticantes”, menos crianças batizadas, menos gente na catequese, menos casamentos católicos, menor prática dominical. É necessário, é urgente, “darmos a volta” a este quadro sombrio. Por isso, acredito que toda esta dinâmica familiar criada pelo Papa Francisco, sobretudo nos últimos dois anos, vai dar frutos. As comunidades vão apostar fortemente na pastoral familiar, porque se tivermos boas famílias cristãs, despertas também para os valores espirituais, haverá mais hipóteses de virmos a ter bons filhos e bons cidadãos.

 

Sítio Igreja Açores- Que passos devem ser dados para que a família seja aquilo que se espera dela?

Jorge Cotovio– É urgente educarmos as novas gerações para o autocontrolo, a capacidade de fazer sacrifício e de renunciar, porque o amor (e qualquer vocação) e o próprio sucesso exigem tudo isto. Temos que educar para as dificuldades. Só passando por elas é que ganhamos resistência, fortaleza, que nos permitem superar as adversidades. Temos que insistir que a “cruz é caminho de salvação/ felicidade”, como prega a Igreja há dois mil anos.

Estes passos têm que ser envolvidos pela oração. Eu acredito que só rezando muito é que conseguimos “dar a volta à situação” e termos boas famílias.

Portanto, os passos que proponho (e procuro viver) são simples e baratos… Mas sei que são contra a corrente dominadora do prazer, do sensorial, do facilitismo, do consumismo, que tanto nos tentam todos os dias… Por isso eu falo na capacidade de saber renunciar, de ter autocontrolo e não nos deixarmos arrastar e influenciar pelas “tentações do mundo”.

 

Sítio Igreja Açores- Vivemos embrenhados no individualismo, o que prejudica a família. Como se pode contrariar esta aparente inevitabilidade?

Jorge Cotovio- Os documentos preparatórios do Sínodo assinalam o “individualismo exasperado” como a primeira causa da crise da família, porque “desnatura os laços familiares e acaba por considerar cada componente da família como uma ilha, fazendo prevalecer, em certos casos, a ideia de um sujeito que se constrói segundo os próprios desejos, tomados como um absoluto” (Lineamenta, 5). E apresenta a solução: “O desafio que se põe à Igreja é ajudar os casais na maturação da dimensão emocional e no desenvolvimento afetivo, através da promoção do diálogo, da virtude e da confiança no amor misericordioso de Deus. O empenho total, que o matrimónio cristão exige, pode ser um forte antídoto à tentação de um individualismo egoístico” (Lineamenta 9). Temos, pois, que apostar muito na preparação dos noivos para o matrimónio, não só a que se faz uns meses antes do sacramento, mas também – e sobretudo – a preparação remota, que se faz na família, na catequese, na pastoral juvenil, nas aulas de EMRC, etc.

 

Sítio Igreja Açores- O Estado está a proteger as famílias?

Jorge Cotovio- O Estado nunca protege a família como devia… Atualmente, no nosso país, há sinais de uma maior abertura política à instituição familiar, não tanto por os governantes “amarem” a família, mas principalmente porque a taxa de natalidade está a pôr em risco a economia e a segurança social…

 

Sítio Igreja Açores- Que políticas deveriam ser promovidas para defender e apoiar as famílias?

Jorge Cotovio- A fiscalidade deveria favorecer o modelo de família tradicional e, paradoxalmente, paga menos impostos quem está divorciado ou em “união de facto” do que quem está efetivamente casado.

A nível do direito, desvaloriza-se a família tradicional em detrimento de outras “famílias”, com tantos ou mais direitos.

Deveria haver mais incentivos para os jovens constituírem família, desde o acesso ao primeiro emprego e à habitação própria, aos estímulos à natalidade (neste aspeto, como já disse, notam-se atualmente alguns sinais positivos).

Mas se não mudarmos a nossa mentalidade, o nosso paradigma de vida, não há políticas de família que resistam… Recordo que foi na década de 80, quando começámos a receber muitos subsídios da Europa, que a taxa de natalidade começou a baixar e os divórcios a aumentar… Nem sempre a “fartura” e as boas condições estruturais conduzem a boas famílias e à ausência de conflitos. Podem ajudar, se tivermos “juízo” e assentarmos as nossas vidas na generosidade, no serviço aos outros, como há dias o nosso Papa salientou em Cuba.