Por Renato Moura

Assisti a uma afirmação de um político, que está no exercício de importantes responsabilidades políticas, declarando, à sua interlocutora no momento, que utiliza muito pouco a televisão e que quando o faz opta pelos programas desportivos. Louve-se a sinceridade, pois não creio que neste caso estivesse a mentir, mas confesso que fiquei estupefacto, pois, sem desrespeito pelo desporto, pensava que quem exerce funções políticas não dispensava obter informação geral e utilizar a televisão como meio de desenvolvimento cultural.

Veio-me então à mente um adágio que rezava mais ou menos assim: nem tudo para todos, nem todos para tudo.

Creio que nada tem de desumano avaliar que há certas responsabilidades que não se podem confiar a qualquer pessoa, pois que há indivíduos que não têm perfil ou capacidade para certas funções, mas podem até ser excelentes noutras.

Agora que se vai iniciar mais uma campanha eleitoral, parece-me importante atender a que se elegerão pessoas e não partidos políticos e que não se pode ser responsável político sem ser culturalmente evoluído.

Embora os candidatos tenham sido propostos pelos partidos ou coligações, que supostamente tendem a aplicar uma determinada ideologia, uma vez eleitos devem responsavelmente responder perante todos os eleitores. Sabendo embora que cada vez há mais razões para desconfiar que os eleitos frequentemente fazem o que lhes mandam os chefes partidários, também é verdade que sendo os eleitos pessoas culturalmente fortes, influenciam, no bom sentido, os partidos e têm até força para agirem com independência nos órgãos para os quais foram eleitos, ao serviço do povo.

Parece-me ainda importante que se escolham candidatos que ofereçam garantias de vir a ter honra no trabalho que produzirem, pois que esses não se limitarão a levantar e a sentar, mas terão o desejo de produzir trabalho que revele a sua coragem e talento, produção que justifique a confiança e garanta a continuidade da consideração pública. Preocupar-se-ão também a construir um legado político que honre os seus descendentes e possa resistir ao julgamento crítico das gerações vindouras.

A terminar atrevo-me a repetir uma pergunta que recentemente deixei em sessão pública: “O que se ganha com campanhas eleitorais em que gordas caravanas distribuem muitas esferográficas e camisolas, programas coloridos de promessas, se depois alguns eleitos escrevem pouco e às vezes mal, não vestem a camisola do compromisso, da coragem, das causas e não suam pela concretização das promessas?”.