Pelo padre José Júlio Rocha

O termo “blasfémia” é polémico. Originariamente, significa um dito ou ato que insulta algo que se considera sagrado. Jesus foi condenado por blasfémia pelo Sinédrio de Jerusalém. Mas antes disso, quando falou na sinagoga de Nazaré, afirmando que Deus amava tanto os estrangeiros pagãos como os israelitas crentes, foi vítima do ódio dos seus conterrâneos. O capítulo 4, versículos 28 a 30 do Evangelho segundo São Lucas, reza assim:

«Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho.»

Como um Deus, Jesus segue o Seu caminho, impávido e sereno, alheio à fúria dos nazarenos. Mas é exatamente desses nazarenos que eu gostaria de falar. Jesus veio trazer uma revolução desconforme: o Deus de Israel não era só Deus de Israel mas de toda a humanidade. Era uma blasfémia. E essa blasfémia despoletou a fúria incontrolada dos nazarenos, que estavam dispostos a matar Jesus.

O que é sagrado, o que pertence à ordem do intocável, inatacável, mítico, é sempre motivo de violência quando é questionado, profanado, se quisermos. Todos nós, até os ateus mais materialistas, temos uma básica dose de sagrado nas nossas vidas. Algo, ou muito, que consideramos intocável, seja a nossa família, o que mais valorizamos, os dogmas essenciais da nossa fé. Tocar nisso de uma forma irónica, cínica ou blasfema é ofender a nossa dignidade. Há coisas com as quais não se deve brincar.

Mas aquilo que consideramos sagrado é muito volátil. Um exemplo: em 1848 desencadeou-se, em Póvoa de Lanhoso, no Minho, uma tempestade que viria a tornar-se numa das rebeliões mais famosas da história de Portugal: a “Maria da Fonte”. Ela está inscrita entre as muitas revoluções que se originaram das guerras liberais da primeira metade do século XIX, mas a razão primeira dessa revolta prende-se com o desconforto e a consequente violência contra o governo que proibira os enterros dentro das igrejas. Aquilo era uma profanação! Tirarem os nossos corpos do lugar sagrado da igreja, perto do Santíssimo e de Maria era intolerável. Não se admitia que os corpos humanos, destinados à ressurreição da carne, fossem

enterrados na rua, num lugar qualquer, abandonados ao campo do demónio. Tudo isto hoje nos parece um pouco ridículo e insano, tanto quanto nos parece nocivo para a saúde pública enterrar corpos dentro de igrejas. Mas devemos dar o débito à História, porque, se estivéssemos lá, naquele tempo, possivelmente estaríamos naquela sublevação, como estamos hoje a sustentar opiniões e posições que, daqui a quarenta anos, vão ser consideradas ridículas.

Uma criança de oito anos, paquistanesa, de identidade desconhecida, de família hindu, urinou num tapete da biblioteca de uma “madraça”, uma escola sagrada muçulmana. Ora, uma criança de oito anos é uma criança de oito anos, ponto final, que não é final porque eu quero continuar. E uma criança de oito anos tem oito anos em todo o mundo, na Papua-Nova Guiné, no Gabão, em Portugal e na lua, se lá houvesse gente. Oito anos é a idade da inocência, mesmo que essa inocência não seja a inocência cândida dos anjos de Rafael. Que seja uma inocência idiota ou parva, se quisermos, mas inocência. Aquilo que deve ser o Ministério Público paquistanês decretou a prisão da criança por blasfémia. E, normalmente, por aquelas terras de Deus ou sem Deus, a blasfémia tem, como consequência provável, a pena de morte. A um miúdo hindu que não tinha nove anos, nem sete: tinha oito anos.

Por precaução, o miúdo foi libertado da prisão e posto em custódia pela polícia, em lugar desconhecido. Perante mais esta blasfémia, toca ao motim. E uma horda desordenada de fiéis muçulmanos invadiu e destruiu um templo hindu no leste do Paquistão. O termo “blasfémia”, em certas áreas “georreligiosas” do nosso planeta, é bastantemente perigoso.

Uma coisa é certa: quando a religião não considera a vida humana como sagrada, acima de quase todas as outras coisas sagradas, essa religião profana-se. Destrói-se, dinamita a sua moral e o seu propósito. Toda a guerra vem do ódio. Todo o ódio vem de uma ideologia que se arvora em religião, ou que se entranha na religião até ao ponto de lhe tirar a dignidade.

A Igreja e o cristianismo também padeceram dessa corrosão. Também o judaísmo, o islão, todas as religiões. Comunismo, nazismo e outras quejandas foram, e são, monumentos a uma religião sem Deus, quando, em nome de um pressuposto homem novo, obliteraram uma das bases fundamentais da mensagem de Jesus, e que nós não pomos em causa, que é a dignidade intrínseca de todo o ser humano, a começar pelos mais pobres e frágeis.

Nem vale a pena explicar porque é que Jesus morreu por blasfémia.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira, do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.