Por Renato Moura

Foi-se a campanha eleitoral oficial para as autarquias. Tanto quanto se viu nas televisões nacionais, não pareceu para órgãos de poder local, mas dava ares de uma campanha nacional para a Assembleia da República.

Os líderes nacionais dos partidos aproveitaram a oportunidade para se exibirem e lutarem entre si, à política de mau feitio, sobrepondo-se aos projectos e candidatos para as autarquias. O Secretário-geral do partido no poder usou e abusou da condição de 1.º Ministro para andar anunciando investimentos de terra em terra, à conta dos dinheiros esperados da Europa, com um descaramento imperdoável. Os líderes dos partidos da oposição, também eles tomando o lugar dos seus candidatos, protestaram, contestaram ou anunciaram alguma coisa que pudesse fazer contrapeso; disso Coimbra foi um claro exemplo: o PS (leia-se o 1.º Ministro) promete um hospital e o PSD a transferência da sede do Tribunal Constitucional (com os juízes a terem a indignidade de considerar indigna a transferência para Coimbra!).

Tudo possível com a comunicação social a dar atenção e ampliar a campanha dos líderes, dando-lhes um destaque inusitado, apenas tentado disfarçar com uns debates entre alguns candidatos.

Pior é o facto de as eleições autárquicas continuarem a servir a luta pelo poder, embora ainda distantes as eleições. Apesar de se saber, como se sabe, como há vitórias onde conta muito mais o mérito dos candidatos e menos o partido, os líderes dos dois principais partidos continuam a digladiar-se: um por sem ganhar ter todavia crescido e outro por ganhar tendo porém diminuído.

Mas as eleições autárquicas e os respectivos resultados também servem para as lutas internas pelo poder dentro dos partidos. Haverá candidatos à oposição interna a sentirem-se desconfortáveis com os sucessos relativos dos respectivos líderes, talvez algum hipotético candidato tenha ficado sem pé, certamente alguns líderes se sentem menos ameaçados pela perda do lugar.

E a comunicação social, como reza a gíria popular, “vai atrás dos foguetes e apanha as canas” diminuindo o papel de noticiar, para se ocupar na tentativa de adivinhação de quem pode ganhar ou perder!

Todo este ambiente estorva a liberdade de cada qual pensar pela sua própria cabeça.

Nos Açores o PS ficou fora do poder em alguns concelhos, porém não se crê seja isso suficiente para perceber como agir em oposição. A “coligação” no governo talvez tenha a tentação de tomar os resultados das autárquicas na Região como uma legitimação do poder; mas isso é um erro fatal.