Pelo padre José Júlio Rocha

Ao que parece, Sísifo andou para aí a enganar os deuses. Não é que isto hoje chateie muita gente, mas na Grécia antiga foi um caso sério. E, de facto, segundo a mitologia grega, Sísifo, rei de Tessália, por manigâncias foi condenado à morte pelos deuses gregos, Zeus à cabeça. Mas Sísifo enganou Hades, deus das trevas, e pediu para voltar só por uns dias à vida. Voltou e nunca mais regressou ao reino dos mortos. O castigo dos deuses foi pior que a morte: passar toda a eternidade a carregar uma pesada pedra pela encosta de um monte e, quando lá chegado, a pedra rolar outra vez montanha abaixo e ele ter de repetir o mesmo rito. Por toda a eternidade. Este castigo, que condensa em parte a teoria do eterno retorno, é um dos cúmulos da inutilidade da existência.

A Igreja parece viver hoje uma espécie de mito de Sísifo: quando as coisas parecem mais ou menos calmas, vem um baldão e a pedra volta a rolar montanha abaixo. E com que estrondo! Refiro-me, evidentemente, ao relatório divulgado em França, que responsabiliza clérigos, religiosos e leigos pelo abuso sexual de mais de 300 mil crianças nos últimos setenta anos. Vou ser muito sincero: de cada vez que oiço a notícia de uma hecatombe destas, que já muitas tenho ouvido, vem-me à cabeça a tentação de me dizer a mim mesmo, como padre católico: “onde é que tu te foste meter?”

Tudo isto é demasiado grave. Como é que, ao longo dos últimos anos, pelas contas que temos, centenas e centenas de milhares de crianças foram abusadas sexualmente dentro da Igreja que os devia proteger? Quase tão grave como os abusos foi o silêncio: a proteção do agressor e do desprezo pela vítima; a conivência e a minimização dos factos; o assobiar para o lado; a profunda e cruel indiferença em relação às vítimas e às consequências graves que a maior parte delas sofreu e sofre. Tudo isto criou um clima de impunidade que permitiu, por exemplo, a certos padres abusarem de dezenas de crianças sem que nada de grave lhes acontecesse, a não ser alguns avisos e mudanças de paróquia. Há histórias de clérigos que se organizavam em associações criminosas para angariar e abusar de crianças e adolescentes, com rituais sagrados e sob uma capa de silêncio e mistério: arrepiante. Agora, com Bento XVI e Francisco, abriu-se a caixa de Pandora: extirpar esse mal sistémico é um parto que vai custar à Igreja uma enorme maquia da sua credibilidade.

O relatório francês explica que 80% das vítimas são rapazes e que 60% revelam, ainda hoje, graves problemas de natureza sentimental e sexual. Isto só tem uma solução, que o Papa Francisco agarrou com as duas mãos: limpar tudo, custe o que custar.

Quase tão difícil de explicar “como saímos daqui” é tentar perceber “como chegámos aqui”.

A moral sexual foi, desde o princípio, um dos pontos mais polémicos da doutrina da Igreja. A opção pelo estoicismo, que proclama o prazer como inimigo da felicidade, culminou na doutrina agostiniana de que o sexo é algo de intrinsecamente mau e só se justifica pela necessidade da procriação. Ainda no século XVIII, com o rigorismo e o jansenismo, havia quem considerasse mesmo que, no “ato matrimonial”, destinado apenas a ter filhos, quem sentisse prazer devia confessar esse pecado logo no dia seguinte. Homossexualidade e masturbação foram considerados, durante muitos séculos, pecados abomináveis, inomináveis, “contra natura”, crimes hediondos, atentados a Deus. Todos os atos contra a castidade eram considerados pecados mortais. A repressão da sexualidade fez dela o tabu por excelência, o terreno minado que havia de levar ao inferno a maioria dos cristãos. Celibato e virgindade foram exaltados, e bem, mas desprezando outros estados de vida, como o matrimónio, estado de vida inferior. Façam as contas aos santos da Igreja e vejam qual a percentagem deles é casada. Há muitos santos que pregaram as cruzadas, a guerra, a inquisição: há muito poucos que pregaram maior compreensão em relação ao sexo.

Freud veio dizer-nos que a sexualidade é uma energia vital, que se pode canalizar mas nunca reprimir. Veio dizer-nos que a sexualidade pertence mais ao campo da psicologia do que da ética. Reprimir a sexualidade é como meter troncos numa ribeira para evitar uma avalanche: a água vai saltar, seja como for. Acrescentem-se numerosas formas erradas de compreender o celibato. Quantos o viveram reprimidos e sem o integrarem como forma de viver a sexualidade de um modo diferente, canalizando-a para um serviço da sua afetividade a Deus e aos homens?

O resultado é: virtudes públicas, vícios privados. E algumas franjas, minoritárias, é certo, mas, mesmo assim, demasiado escandalosas, descambaram para formas perniciosas de sexualidade, mais confortáveis, é certo, porque a criança é o elo mais fraco.

“Vergonha, vergonha, vergonha!”, disse Francisco.

Onde é que me fui meter? Na Igreja de Jesus Cristo. Na Igreja de São Francisco de Assis, na Igreja que tem mais de 120 mil instituições de solidariedade social, sendo a instituição mais solidária do mundo. Na Igreja que prega o amor e a misericórdia, e os pratica. Na Igreja da oração e da paz. Na Igreja que aponta caminhos de salvação sem condenar. Na Igreja que, fiel ao Espírito, abre os braços e acolhe. Na Igreja dos sacerdotes que deram a vida por uma causa, renunciando a outras causas, e que mantém viva a fé dos crentes, abrindo-lhes janelas de esperança. Na Igreja que denuncia as injustiças sociais e os poderes injustos. Na Igreja que celebra o Amor de Deus na beleza dos sacramentos.

Mas não me sai da mente aquela sentença de Jesus: “Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar.” (Marcos 9, 42)

Profético.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio