Por Renato Moura

Realizadas as eleições, sucederam-se as análises: dos partidos, dos comentadores; com números, percentagens, explicações, justificações.

Os valores, só no território nacional, dos 45,5% que se abstiveram e dos 2,5% que votaram em branco, têm um significado político profundo, que parece não perceberem… ou não quererem perceber. Os eleitos, ainda que com legitimidade legal, cada vez representam menos eleitores!

Percebeu-se de novo que os sucessos duma governação, resultado da conjuntura, pressão dos parceiros ou da oposição, ou mérito próprio, aproveitam sempre ao partido do governo.

Mais uma vez se viu que a arrogância tomada de pequenas vitórias e feita de oposição descabelada, é severamente punida; e que uma alternativa de governo, para ser credível, tem de ser oportuna, fundamentada, coerente, consistente e continuada.

Ficou claro que a parte do povo que ainda vota não dá tudo o que se implora encapotada ou explicitamente. Mas constatou-se que, provavelmente pelo descontentamento, descrédito de formações políticas tradicionais, descrença nos políticos, se encontrou terreno fértil para a retórica fácil. E assim meia dúzia de ideias panfletárias e a jactância de vitórias insignificantes e oferecidas, possibilitou o crescimento de alguma formação; ou o acesso ao parlamento de outras forças extremistas, que até aqui o bom senso partidário e eleitoral soubera evitar. E logo o pequeno poder se lhes subiu à cabeça e alardearam ambição desmedida!

Inacreditável, mas ainda real: partidos de esquerda, também de direita, que encobrem as derrotas eleitorais, compõem discursos excluindo-se da responsabilidade e atribuindo culpas a razões estranhas.

O exercício da política, seja ao nível público ou partidário, envolve compromisso pessoal com a causa, que implica sinceridade, seriedade, verdade e toda a verdade, honestidade. Exercido nas instituições políticas resulta de um comprometimento proposto e aceite, firmado com pleno conhecimento das regras, impondo-se a defesa corajosa das causas públicas, com legalidade, isenção, respeito pelo erário público, com disponibilidade, ainda que sem apego ao lugar.

Mas no exercício do poder há também um dever moral. É que a sua prática tem implicações na vida social e nas pessoas em concreto. E é também por isso que a Igreja tem o dever, através de todos os seus órgãos e agentes, de estar atenta ao exercício dos poderes públicos, passados, presentes e futuros, clarificando, criticando construtivamente, denunciando, defendendo as pessoas e todos os valores.