Cardeal António Marto lança alerta urgente sobre a Paz e a desumanização do mundo

O Cardeal António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima e membro da Cúria Romana, afirmou que a Mensagem de Fátima não é uma herança estática do passado, mas um apelo vivo e urgente para os dias de hoje, numa conferência marcante sobre a atualidade da mensagem de Fátima , que se realizou esta terça-feira na Horta, no segundo Diálogo na Cidade, uma iniciativa da ouvidoria do Faial.
Com um tom pessoal e reflexivo, D. António Marto, interpelado por Monsenhor António Saldanha, pároco da Matriz e da Conceição da Horta, começou por admitir que nem sempre viu Fátima com os mesmos olhos.
“Durante muitos anos olhei com ceticismo”, confessou, sublinhando que as chamadas revelações privadas “não fazem parte dos dogmas da fé”, sendo antes uma atualização do Evangelho para momentos concretos da história.
O ponto de viragem aconteceu em 1997, quando foi desafiado a estudar a mensagem de Fátima mais a fundo. Ao ler pela primeira vez as memórias da Irmã Lúcia, percebeu que ali existia “algo de muito sério”, ainda que expresso numa linguagem datada que exige interpretação cuidada para evitar reducionismos devocionais.
Segundo o cardeal, Fátima emerge como uma mensagem universal, dirigida tanto ao mundo – marcado por guerras e violência – como à Igreja, ameaçada por ideologias totalitárias. No centro dessa mensagem está um binómio essencial: “graça e misericórdia”, expressão que a própria Lúcia destacou na visão de Tuy, em 1929.
Ao longo da história, vários pontífices foram interpretando e atualizando esta mensagem. Papa Paulo VI destacou em 1967, em Fátima, o tema central da paz.
“A paz é um dom de Deus que exige a colaboração livre do homem”, recordou D. António Marto, citando o apelo à responsabilidade humana na construção de um mundo reconciliado.
Já São João Paulo II, profundamente marcado pelo atentado de 1981, reforçou a dimensão espiritual e profética de Fátima, enquanto o Papa Bento XVI alertou para uma leitura mais profunda: “os inimigos da Igreja estão dentro da própria Igreja”.
Por sua vez, o Papa Francisco encontrou em Fátima o silêncio transformador da oração. “Fátima foi, para mim, o silêncio”, recordou o bispo emérito da diocese de Leiria-Fátima, evocando a experiência do Papa na Capelinha, em oração pela paz mundial.
O cardeal foi contundente ao afirmar que “nós próprios construímos o inferno na Terra”, através da desumanização e da perda de Deus no horizonte humano. Nesse sentido, Fátima surge como “um raio de luz na história”, chamando à reconstrução da fraternidade.
Mais do que um simples apelo ao cessar-fogo ou acordos políticos, a paz proposta em Fátima exige transformação interior: “Só quem tem paz dentro de si pode construir a paz”. D. António Marto destacou ainda três pilares fundamentais da Mensagem de Fátima: adoração, a misericórdia e a conversão. Sem eles, advertiu, “não há verdadeira paz”.
Num mundo “profundamente ferido — física, moral e existencialmente”, prosseguiu, a Igreja deve agir como “hospital de campanha”, promovendo o encontro com o amor misericordioso de Deus, e não a condenação.
A mensagem de Fátima, concluiu, é exigente e atual: chama cada pessoa à responsabilidade de “reparar o que o pecado destruiu” e a viver o Evangelho no quotidiano. “A santidade é para todos”, afirmou, contrariando a sua aparente ausência de valorização na sociedade contemporânea.
Entre memórias pessoais e interpelações diretas, D. António Marto deixou um desafio claro: redescobrir Fátima não como devoção isolada, mas como um caminho concreto de transformação pessoal e coletiva, onde tudo começa e termina no amor.
D. António Marto foi criado cardeal em junho de 2018, pelo papa Francisco, de quem era próximo , imediatamente a seguir à comemoração do Centenário das Aparições de Fátima. É titular da Igreja de santa Maria Sopraminerva, em Roma e membro do Dicastério das Causas dos Santos. Tem sido legado pontifício em inúmeras ocasiões, nomeadamente em Santiago de Compostela por ocasião da Jornada Europeia da Juventude que precedeu a JMJ de Lisboa em 2023.
O cardeal português vai presidir este fim de semana à Festa do Senhor Santo Cristo, sendo esperadas duas intervenções: a do sermão no sábado e a da homilia no domingo, ambos com transmissão em direto na RTP Açores.