O 50.º aniversário do encontro de Paulo VI com o líder da Igreja Ortodoxa é o pretexto para a viagem, mas, na Jordânia, em Belém ou em Jerusalém, o Papa quer falar de paz, das perseguições aos cristãos e da violência que consome a região.

Quando neste sábado o Papa aterrar em Amã, na Jordânia, na primeira escala da visita de três dias à Terra Santa, sabe que tem pela frente a missão mais delicada desde que foi eleito.

 

Francisco assegura que se trata de uma “viagem estritamente religiosa”, que terá como principais preocupações a unidade dos cristãos e o apoio à cada vez mais pequena comunidade de fiéis do Médio Oriente. Mas, cada etapa e cada discurso da peregrinação serão analisados ao pormenor – palavras e gestos que terão consequências na ação diplomática do Vaticano e nas delicadas relações da Igreja Católica com judeus e muçulmanos.

 

O voo papal partiu de Roma às 08h15 (menos duas que nos Açores) e o Papa enviou um telegrama ao presidente da Itália, Giorgio Napolitano, no qual manifesta a intenção de “rezar pela justiça e a paz e encorajar o diálogo ecuménico e inter-religioso”.

 

A agenda prevê 14 intervenções, entre homilias e discursos, e a assinatura de uma declaração conjunta com o patriarca ecuménico (Igreja Ortodoxa) de Constantinopla, Bartolomeu, assinalando os 50 anos do encontro entre o Papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras, em Jerusalém.

 

Francisco leva na sua comitiva o rabino Abraham Skorka, de Buenos Aires, e um professor muçulmano, Omar Ahmed Abboud, secretário-geral do Instituto de Diálogo Inter-religioso da República da Argentina.

 

Na Terra Santa, o Papa vai visitar, entre outros, o Santo Sepulcro, o memorial do Holocausto ‘Yad Vashem’, o Muro das Lamentações e a Esplanada das Mesquitas.

 

Na Jordânia, em Amã, primeira etapa da viagem apostólica, o Papa vai reunir-se com o rei Abdullah e Rania.

 

Francisco preside, também, a uma missa no estádio internacional de Amã e visitará, em seguida, o local do Batismo de Jesus, junto ao Rio Jordão, onde se encontrará com refugiados da Síria e jovens deficientes.

 

Francisco vai almoçar com famílias da Palestina no convento franciscano de Casa Nova e fará uma visita privada à gruta da natividade.

 

Ainda em Belém, o Papa vai saudar as crianças dos campos de refugiados de Dheisheh, Aida e Beit Jibrin, antes de partir para Telavive, em Israel, onde vai discursar, seguindo-se depois o programa na cidade de Jerusalém.

 

Às 18h15 (menos três que nos Açores), Francisco vai encontrar-se em privado com o patriarca de Constantinopla para assinar uma declaração conjunta, antes do encontro ecuménico na Basílica do Santo Sepulcro.

 

O 50.º aniversário desse encontro, que inaugurou a reaproximação das duas igrejas desavindas desde o cisma de 1054, é, de resto, o pretexto para a visita de Francisco, que, no domingo, estará ao lado do patriarca Bartolomeu numa celebração ecuménica na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

 

A igreja, erguida sobre o local onde, segundo a tradição, terá estado sepultado Jesus Cristo, está sob jurisdição conjunta de gregos ortodoxos, católicos e arménios, mas as quezílias são constantes. A cerimónia pretende, por isso, ser um apelo à unidade dos cristãos, sobretudo num momento em que, por toda a região, são denunciadas perseguições e ataques.

 

Na celebração, Francisco terá bem perto de si alguém que foi diretamente visado por essas ameaças: Bechara Rai, patriarca dos maronitas (igreja de rito oriental, maioritária entre os cristãos libaneses), foi avisado pela milícia xiita do Hezbollah de que a sua deslocação a Israel – com que o Líbano continua oficialmente em guerra – constitui “um pecado histórico” com “repercussões perigosas e negativas”.

 

Às ameaças dos radicais islâmicos, junta-se a discriminação em Israel, as limitações de culto em muitos países árabes, a violência confessional no Egipto ou as guerras que provocaram verdadeiros êxodos na Síria e no Iraque, ao ponto de, como alertou o patriarca latino de Jerusalém, Fouad Twal, a terra que foi o berço do cristianismo, estar à beira de se tornar uma “Disneyland espiritual”, à qual acorrem peregrinos de todo o mundo, mas onde já quase não vivem fiéis – no início do século XX eram 20% da população do Médio Oriente, hoje não serão mais de 2% a 4%.

 

O último dia da visita, domingo, inicia-se com visitas ao grande mufti de Jerusalém, na Esplanada das Mesquitas, ao Muro das Lamentações e a deposição de flores no Monte Herzl, o cemitério nacional de Israel.

 

Francisco vai discursar depois no mausoléu do Yad Vashem de Jerusalém, em memória das vítimas do Holocausto, visitando em seguida os dois grãos-rabinos de Israel, no centro Heichal Shlomo.

 

O Papa vai encontrar-se com o presidente da Israel, Shimon Peres, no palácio presidencial, e reunir-se com o primeiro-ministro Benyamin Netanyahu no centro Notre Dame.

 

A parte final da agenda vai decorrer no Monte das Oliveiras e inclui uma nova visita ao patriarca Bartolomeu, um encontro com o clero e religiosos católicos e a última missa, com os bispos da Terra Santa, na sala do Cenáculo, em Jerusalém.

 

Francisco é o quarto Papa a visitar a região desde que, em 1964, Paulo VI escolheu Jerusalém como destino da sua primeira viagem para fora da Europa (e a primeira a realizar-se de avião) – um inédito que se transformou em história quando ele se reuniu com o então patriarca de Constantinopla, considerado o primeiro entre os líderes das igrejas ortodoxas.

 

Esta será a segunda viagem fora da Itália de Francisco, após a visita ao Brasil em julho de 2013, e a quarta visita de um Papa moderno à Terra Santa, após Paulo VI (1964), João Paulo II (2000) e Bento XVI (2009).

 

A peregrinação evoca oficialmente o encontro entre o Papa Paulo VI e o patriarca ecuménico Atenágoras, de Constantinopla (Igreja Ortodoxa), que teve lugar a 5 e 6 de janeiro de 1964 no Monte das Oliveiras em Jerusalém.

 

Este foi o primeiro encontro em mais de 500 anos entre os máximos representantes da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa, divididas há mais de nove séculos.