Karol Wojtyla imprimiu à Igreja moderna um cunho que, há muito, não se conhecia.

O seu longo pontificado, com o nome de João Paulo II, impressionou nações e seus dirigentes pelos exemplos de fé e perserverança manifestos ao ponto de se dizer que, depois dele, dificilmente viria outro capaz de conseguir a mesma aceitação e admiração dos povos em geral. Bastou, contudo, uma breve transição, cautelosamente conduzida pelo resignatário Ratzinger, para que, inesperadamente, a Igreja se abrisse ao mundo com uma nova florescência apostólica que a figura inigualável do Papa Francisco vai transmitindo sem que alguém possa adivinhar, ainda, os limites do seu protagonismo sócio religioso.

A Igreja deste novo século não poderia ter feito melhores escolhas quanto aos dirigentes e representantes que a têm orientado ao mais alto nível mas, se é verdade que os crentes ainda não esqueceram as recentes personalidades de João Paulo II e Bento XVI, o certo é que o Papa Francisco surgiu como que incorporando o próprio Espírito de Deus que sopra de um extremo ao outro do mundo.

Vindo da capital argentina, um meio fértil em corrupção e imoralidade, o cardeal Bergoglio tornou-se Bispo de Roma e assumiu a cátedra de Pedro com a mesma naturalidade de quem pratica um outro qualquer ato do seu ministério sacerdotal. Foi de pouca duração a incógnita sentida no imediato quando se apresentou com o nome de Francisco. Desde muito cedo, o atual Papa, duma maneira descontraída e desusada, foi revelando a sua absoluta simplicidade, contagiando as gentes das mais diversas raças, ideologias, latitudes, dogmas… E o mundo recebeu-o como uma lufada de ar fresco que a todos bafejou sem que fosse possível insinuar-se a mais ténue recusa a esta sua proximidade aos grandes e pequenos, aos afortunados e aos que mais sofrem e que ele sabe acolher com impressionante compaixão e motivação de fé.

O Papa Francisco é simples, natural e espontâneo, criando uma empatia quase intimista com todos os que dele se acercam e ganhando a simpatia de quantos o ouvem e observam no exercício da sua diversificada missão humana e cristã. Tudo nele é transparente e verdadeiro e os seus atos e determinação são sempre dirigidos em busca da Verdade. Não permitiu que a Igreja continuasse a ignorar ou disfarçar os seus erros e responsabilidades em causas fundamentais e casos específicos como a pedofilia. Assumiu a vergonha dos pecados praticados e pediu perdão à humanidade, consciente de que só enfrentando a verdade se pode combater o que não está bem e prosseguir em busca da perfeição. O Papa Francisco é assim; não tem de se humilhar porque a humildade já está latente na sua personalidade simples e encantadora. Não esconde nem disfarça porque toda a sua transparência moral resulta duma permanente naturalidade. E a espontaneidade que o Papa Francisco confere a cada um dos seus atos, das suas intervenções e dos seus relacionamentos é de tal forma cativante que tem impressionado crentes e não crentes. Ninguém consegue ficar indiferente a este Papa cuja transparência não deixa dúvidas e cujo exemplo tem gerado novas conversões.

A atuação do Papa Francisco, ao longo destes dois anos de pontificado, dá-nos a ideia de que tudo ainda está no começo. Ele parece idealizar uma Igreja completamente renovada, uma Igreja totalmente despida de preconceitos e até mesmo de doutrinas complexas que acabam por desvirtuar a essência do Cristianismo. Essa atitude desconcertante provoca, com certeza, resistências dentro da própria Igreja, a começar pelos que lhe são mais próximos e mais acomodados à expressividade tradicional dos ritos e determinação controlada das manifestações de religiosidade dos fiéis.

O mundo inteiro reconhece a transparência do Papa Francisco. A sua maneira de fazer apostolado não é indiferente a ninguém e ele também não espera que essa indiferença se possa instalar na medida em que faz por estar presente entre todos os povos de todas as raças e crenças, expressando-se abertamente, perante os acontecimentos mundiais, com palavras de compreensão e de esperança.

O reconhecido carisma do Papa Francisco fere, certamente, a maldade humana. Haverá, sem dúvida, quem se sinta incomodado e pretenda eliminá-lo. Despreocupado, tolerante, espontâneo e aberto, o Papa poderá tornar-se um alvo fácil das hediondas forças do mal. Esperamos, no entanto, que o poder de Deus permita a sua permanência entre nós a fim de nos indicar o caminho a trilhar pela verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

Terra Garcia, Membro do Conselho Pastoral Diocesano pela Ouvidoria do Pico