Por Renato Moura

Sem nenhuma motivação especial, escolhi para ler o Diário de Notícias do dia 5. Vim a deparar-me com a peça de opinião o “Cancro da Igreja”, assinada por Anselmo Borges (Padre e Professor de Filosofia). O título certamente retirado de uma corajosa afirmação do Papa Francisco sobre a necessidade de “superar a desequilibrada e degenerada lógica das intrigas e dos pequenos grupos que na realidade representam, apesar das suas justificações e boas intenções, um cancro que leva à auto-referencialidade, que se infiltra também nos organismos eclesiásticos enquanto tais e, em particular, nas pessoas que neles trabalham”.

Achei a peça excelente, não só por ser fundamentada nos escritos, palavras e actos do Papa, mas também por reconhecer, com realismo, que “Francisco é hoje um dos líderes mundiais mais estimados, amados e influentes do mundo”, mas, por outro lado, que lhe são críticos conservadores radicais, que lhe desejam a morte ou a resignação. E explica “Tão simples como isto: apareceu no Vaticano um Papa cristão, que procura seguir o Evangelho de Jesus por palavras e por obras”.

O P.e Anselmo expressa-se com clareza: “Francisco tem na Igreja muitos opositores e inimigos, furiosos por causa das reformas que está a operar e por verem os seus interesses, incluindo o clericalismo e o carreirismo ameaçados”.

O articulista recorre depois a perguntas que fundamentam com toda a solidez a razão de Francisco, como por exemplo: “Não tem razão quando, na linha de Jesus, faz apelo ao poder como serviço?”, “Não tem razão quando denuncia o vaticano-centrismo, a pompa da Cúria, de cardeais e bispos, a hipocrisia…?”, “Não tem razão quando afirma que ‘o confessionário não pode ser uma câmara de tortura, mas um encontro com a misericórdia do Senhor’ e que algumas pessoas num segundo casamento ou união civil ‘podem estar a viver na graça de Deus, podem amar e também crescer na vida da graça e da caridade, recebendo a ajuda da Igreja com esta finalidade’ e que (…) ‘em certos casos, isto pode incluir a ajuda dos sacramentos’ sublinhando que a Eucaristia “não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio poderoso e alimento para os fracos?”.

Há coincidências. Não só na minha sempre partilhada admiração por Francisco; que vencerá.

Vi depois, no Igreja Açores, que precisamente no dia 5 fora noticiado que Anselmo Borges, apetrechado com um curriculum impressionante, daria uma conferência com o tema “Francisco Papa: Líder Político-Moral Global”. É em Ponta Delgada, no dia 1 de Fevereiro. Aproveitem quantos puderem.