Por Carmo Rodeia

Peço uma vez mais de empréstimo à literatura um título para este Entrelinhas. Desta vez recorro a Tolstoi e à sua obra prima que centra a narrativa nas campanhas napoleónicas de 1805 e 1812, traçando um quadro assombroso da Rússia do século XIX, sobretudo da sua alta sociedade, presente nas famílias Bolkonsky e Rostov, e na qual o autor não esconde o seu amor pelos humildes e a sua simpatia por todos aqueles que —desde o soldado Karataiev até ao general Kutuzov — renunciaram a toda a forma agressiva de existência.

O ano começa com a celebração do Dia Mundial da Paz e o Papa, sempre o Papa dirão muitos, na sua tradicional mensagem para este dia apelou a uma cultura de não violência e de não agressão, entre estados, mas também entre as pessoas, a começar por cada um de nós, propondo que cada um possa, à medida das suas possibilidades, contribuir todos os dias com uma atitude que promova o bem.

Este é também o ano em que o mundo católico estará certamente de olhos virados para Portugal. Em Fátima celebra-se o centenário das aparições, um momento particularmente importante para nos centramos na mensagem de Fátima, que é mensagem de paz. Aqui, Nossa Senhora pediu insistentemente que rezássemos “o terço todos os dias para alcançar a paz para o mundo e o fim da guerra”. Cem anos depois continuamos a viver num mundo ferido por guerras e conflitos, que deixam um lastro de vítimas inocentes, de deslocados e refugiados, obrigados a abandonar os seus países e muitas vezes perseguidos, explorados e desprezados nos lugares de acolhimento. Infelizmente as nossas sociedades experimentam, por outro lado, outras formas de agressão igualmente letais como a corrupção, o crime organizado, a exclusão social e a solidão que exigem de nós cristãos, até como forma de testemunho, uma nova atitude, nos passos de Jesus que invariavelmente nos alertou para a dureza do nosso coração para com com os outros e às vezes até para com nós próprios, apontando-nos como essa dureza nos pode alhear dos outros e de Deus.

É difícil ter uma vida interior de qualidade, se nem vida se tem, na azafama de um quotidiano que devora tudo, em que não temos tempo para nada. Na massificação das imagens que nos são impostas, em que perdemos a capacidade de ver. No excesso de informação e de palavra, onde esquecemos a arte de ouvir e comunicar vida. Ficamos como os soldados dos exércitos francês e russo, que na Guerra e Paz de Tolstoi, deixaram de ser capazes de poder refletir e  discernir, vivos mas alienados pelo stress dos campos de batalha. Damos por nós como se estivéssemos num deserto árido, perdidos entre as dunas, sem orientação. E quando nos voltamos para Deus, já nem sequer sabemos rezar.

Hoje, como há cem anos , é e era assim um pouco por todo o mundo. A incapacidade do homem em escutar o outro levou aos totalitarismos que ceifaram a vida a milhões de pessoas. Totalitarismos que esconderam Deus do homem, enaltecendo outros valores, que ainda hoje perduram apesar da consciência de que não servem.

O Papa, tal como há cem anos Nossa Senhora, pede-nos oração. A oração não custa dinheiro; não ofende; não explora nem magoa. Pode quanto muito mostrar-nos como o nosso catolicismo pessoal está, quantas vezes, a léguas de distância de Deus.

A oração não é um comportamento exclusivo de nenhuma religião, lembrava-nos há uma semana Frei Bento Domingues na sua crónica de Natal, no Público, frisando que ela nasce em nós por causa dos nossos limites.

“Pedir socorro, quando se está aflito, é uma atitude normal e saudável. É uma forma de nos convencermos dos nossos limites e do quanto precisamos de Deus e dos outros para transformar este nosso mundo”. Mesmo que daqui a cem anos, os nossos netos e bisnetos possam estar a falar deste assunto, de novo…vale a pena ir por aqui.