Por Carmo Rodeia

“Deixámos tudo nas mãos, na cabeça e, sobretudo, no grande coração do papa Francisco”.

A afirmação é do Cardeal Patriarca de Lisboa numa entrevista conjunta que deu à Agência Ecclesia e Família Cristã no final dos trabalhos do Sínodo.

Concluídos os trabalhos e terminado o relatório, resta ao Papa redigir um documento final que resuma as questões abordadas e conclusões alcançadas durante estas três semanas.

Em agosto, Francisco disse que os católicos divorciados que iniciaram novas relações “precisam de um acolhimento fraterno e atento, no amor e na verdade”.

Os 270 padres sinodais pediram “discernimento e integração.” Duas palavras que aparecem como chave para o entendimento de uma discussão que provocou cerca de 500 intervenções e outras tantas propostas, na sua maioria ofuscadas pela mediatização de algumas questões fraturantes.

Mas o Papa insistiu, apelando de novo a uma Igreja mais aberta e que prefira olhar para a vida das pessoas.

“Uma fé que não consegue alicerçar-se na vida concreta das pessoas permanece árida e, ao invés de um oásis, cria desertos”, declarou.

O Papa foi mais longe quando falou do cego e da indiferença a que foi votado por todos, que passavam e simplesmente o ignoravam para concluir que “pode ser o nosso risco: face aos contínuos problemas, o melhor é continuar para diante, sem se deixar perturbar”.

Como aqueles discípulos, “estamos com Jesus mas não pensamos como Jesus. Está-se no seu grupo, mas perde-se a abertura do coração, perdem-se a admiração, a gratidão e o entusiasmo e corre-se o risco de tornar-se ‘consuetudinários da graça’. Podemos falar d’Ele e trabalhar para Ele, mas viver longe do seu coração, que Se inclina para quem está ferido”, disse.

E as feridas do mundo, hoje, são grandes. Podíamos até dizer que começam e acabam na família porque tudo, direta ou indiretamente, mexe com ela. Nós mexemos com a família. A de onde vimos e a que construímos.

O documento final diz que as pessoas batizadas “que se divorciaram e voltaram a casar devem estar mais integradas nas comunidades cristãs”. Propõe um caminho de “discernimento” que deve ser avaliado caso a caso, de acordo com as orientações da Igreja. E continua: “ é necessário discernir quais as formas de exclusão atualmente praticadas na liturgia e nos enquadramentos pastorais, educacionais e institucionais, que podem ser ultrapassados”.

E, aos padres, adianta o relatório, cabe o dever de os acompanhar, devendo ser feito “um exame de consciência, com momentos de reflexão e arrependimento”, em que os divorciados devem “perguntar a si mesmos como é que se comportaram perante os seus filhos quando as suas vidas conjugais entraram em crise”.

O relatório aposta fortemente na valorização do acompanhamento das famílias, especialmente ao nível da preparação para o matrimónio e acompanhamento das famílias cristãs.

O testemunho na vida cristã é essencial. As situações de miséria e de conflitos, quaisquer que elas sejam, são para Deus ocasiões de misericórdia. E, o amor Dele não se mostra se não naqueles que a praticam. O próximo ano, altura em que deverá sair a exortação pós sinodal do Papa, é o Ano Santo da Misericórdia.

O Papa não se esquecerá disso. Com certeza!