Por Renato Moura

Esta é a época em que temos o privilégio de receber a visita de muitos emigrantes e essa presença traz-nos à memória tantos acontecimentos da história.

Que me perdoem pelo facto de o Verão me ser pouco propício para a criação; e assim recorrer à adaptação e condensação de um texto, que recentemente escrevi a pedido, para um teatro de rua da “Jangada”, por altura da XXXIII edição da Festa do Emigrante, nas Lajes das Flores.

Emigrou-se quando a terra madrasta não deu o essencial, quando faltava instrução mínima para facultar o acesso ao emprego, quando não havia trabalho que permitisse sustentar a família e dar aos filhos melhor do que os pais tiveram. Tantos homens heróis outrora partiram sozinhos, para não deixar a miséria como herança aos filhos. Alguns fugiram a salto, caçaram baleias, ordenharam tantas vacas no rancho que até lhe caíram as unhas, treparam árvores, cortaram madeiras, viveram em barracos, comeram depressa o que lhes traziam, antes que lho retirassem aquelas raparigas, que a longa fome da vista lhes faziam parecerem lindas. A troco de tão pouco ajudaram a construir a maior economia do mundo.

Também se emigrou, com papeis e ilegalmente, por impulso, por tentação irresistível, ou como que empurrados por um drama maior ou menor. Partiram pais para safar filhos da inglória guerra do Ultramar.

É digna de exaltação a coragem que tiveram, por partir, por ficar lá; pela vitória sobre o medo, pelo controlo do desespero. É admirável a luta para aprender a língua, encontrar casa, conseguir emprego, trabalhar dois dias num só.

Deus que os ajudou os compensará por nunca terem esquecido os que ficaram; por sempre terem partilhado uns dólares que então faziam muitos escudos; pelas sacas que enviaram com roupa que vestia homens, mulheres e crianças; pelos brinquedos e guloseimas que fizeram a alegria de tantas crianças.

Os nossos emigrantes foram e são heróis que honram os Açores e Portugal: pela cultura açoriana e portuguesa e a língua que difundiram; pelo culto ao Divino Espírito Santo que irradiaram; pelas associações que fundaram e dirigem; pelos cargos que, por mérito próprio, atingiram nas instituições e na administração, até aos mais destacados níveis.

Por tudo isso, os homens e mulheres, designadamente os que têm responsabilidades na política e na governação, têm de saber utilizar o exemplo e os conhecimentos dos nossos emigrantes, têm de ser capazes de aprender com a experiência e de aproveitar a cooperação dos que regressaram.

Saibamos receber, prestigiar e atrair os emigrantes.