Pelo Pe Sérgio Mendonça*

Celebrar o aniversário de uma Diocese deverá ser momento para uma reflexão profunda. Como Igreja Diocesana temos que nos interrogar se estaremos a viver no dia-a-dia a construção do templo espiritual, e se realmente nos sentimos como pedras vivas do mesmo.

Falando de uma realidade periférica como a da ilha Graciosa, que também é Diocese, vemos que estamos perante uma população envelhecida onde a desertificação é cada vez maior, motivada pela não fixação dos jovens, como o é nas ilhas mais pequenas.

Nesta parcela da Diocese, que no passado tantos pastores albergou, a religiosidade de outrora está patente nos inúmeros templos e ermidas espalhados pela ilha. Mas, não podemos viver do passado, e a realidade é que muitas vezes parece que o que resta são apenas as tradições. Sente-se cada vez mais a impermeabilidade dos cristãos à formação, os sacramentos são meras festas sociais, os pais não acompanham os filhos, problemas que não serão só sentidos por estas paragens.

Em suma, há uma Igreja local mas com pouca consciência do “ser diocesana”, e pouco aberta às linhas de orientação geral, facto em parte motivado pelo próprio “não sentir” a Diocese.

Penso que o grande desafio para o futuro, seja a nível diocesano ou local, será o deixar de viver no faz de conta. Faz de conta que tudo está bem porque as pessoas ainda aparecem nas manifestações de piedade popular. E assim continuamos a alimentar esta procura do imediato, de igreja estação de serviço, sem qualquer desejo de assumir compromisso com a comunidade. A visita da imagem peregrina, que nos foi imposta, é sem dúvida mais um alimentar desta procura do imediato. Muito tem que ser repensado, muito caminho temos que percorrer. Talvez tenhamos que deixar de pensar nas massas de fachada para começar a pensar em pequenas comunidades de comprometidos.

A minha opinião de pouco servirá, mas vale pelo que sinto e sei que alguns colegas também comungam da mesma. Decerto que não caberá a mim, padre de uma periferia, mas aos pastoralistas e responsáveis pela dinamização pastoral dos vários serviços diocesanos, repensar o que é deveras essencial.

Por fim, há que não perder a esperança e lembrar os maiores dons que alimentam esta Igreja particular de Angra: a Palavra e a Eucaristia.

Estamos a viver mais um aniversário, será tempo de lançar de novo as redes, acreditando que não somos nós que guiamos a barca, mas que temos que deixar o Espírito trabalhar em nós e através de nós, e assim possamos nesta Igreja ser verdadeiros sinais e instrumentos de comunhão, esperança, amor e misericórdia.

* O Pe Sérgio Mendonça é ouvidor eclesiástico da Graciosa