Iniciativa assinala sexto aniversário da encíclica ecológica e social do Papa, encerrando ano dedicado ao documento

A semana Laudato Si que agora termina insere-se num contexto mais amplo que assinala o 6º aniversário da encíclica verde do Papa Francisco, o documento mais abrangente de um  pontificado sobre matérias ecológicas e sociais.

“Neste ponto crucial que a pandemia nos trouxe, é hora de oferecer um roteiro claro para a próxima década, uma mensagem pela criação da Comissão Covid-19 do Vaticano”, assinala o Vaticano, numa informação enviada à Agência ECCLESIA.

O Papa assinalou o arranque desta semana, ao saudar os peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, para a recitação da oração do Regina Caeli, e desafiou todos a “educar-se, cada vez mais, para escutar o grito da terra e o grito dos pobres”.

Francisco agradeceu aos promotores da iniciativa e às organizações que aderem a este conjunto de propostas.

“Convido todos a participar”, disse.

A Santa Sé considera que, desde a publicação da encíclica ‘Laudato Si’ do Papa, a Igreja e os católicos de todo o mundo fizeram “progressos significativos” no seu caminho de conversão ecológica, mas ainda há muito para ser feito.

A ‘Semana Laudato Si’, “de celebração, ação e testemunho”, decorre até  25 de maio e visa mostrar quanto “as coisas mudaram para melhor”.

Os organizadores vão disponibilizar a ‘Plataforma de Ação Laudato Si’, que vai estar acessível no site oficial ‘Laudato Si’ do Vaticano.

A iniciativa pretende reunir “os principais interlocutores eclesiais”, através de diversas ações e eventos, continuar a divulgar o ‘Evangelho da Criação’, e “invocar o Espírito Santo e a intercessão da Virgem Maria” para os projetos católicos relacionados com o cuidado da criação e comprometer as ordens contemplativas para rezar por eles.

A ‘Semana Laudato Si’ 2021 foi dinamizada pelo Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral da Santa Sé e o Movimento Católico Mundial pelo Clima atuou como facilitador de um grupo de “mais de 150 organismoscatólicos” que participam nesta iniciativa.

Do programa destacam-se diversas oportunidades de diálogo sobre as “oportunidades importantes em 2021 para gerar mudanças”, educação, economia, combustíveis fósseis e direitos humanos.

 

 

O documento, elaborado pela mesa interdicasterial da Santa Sé sobre a ecologia integral,  apresenta como chaves para uma mudança na relação das pessoas com a natureza a “sobriedade”, o “consumo responsável” e o “uso de energias renováveis”.

As comunidades católicas de todo o mundo são desafiadas a assumir iniciativas de educação e formação sobre a ecologia, a reciclar, a utilizar meios de transporte menos poluentes e a partilhar veículos (car sharing), a um consumo “crítico e circular” a um “investimento ético” ou a abolir o uso de plásticos descartáveis, entre outras medidas.

O Vaticano apela a uma economia com menor impacto ambiental, sem subsídios para energias fósseis e taxas para as emissões de dióxido de carbono (CO2).

Na questão dos investimentos, o texto refere que se devem evitar empresas que prejudiquem a “ecologia humana e social”, dando como exemplo a prática do aborto, o comércio de armas ou os combustíveis fósseis.

As várias instituições católicas de educação e formação são chamadas a sensibilizar a sociedade para as causas da paz, da justiça e da democracia, promovendo a defesa da dignidade humana e dos direitos de cada pessoa.

Nesse sentido, questiona-se a “cultura da eficiência, do usa e deita fora”, que coloca em causa o ser humano com “fragilidade”.

Outra série de propostas diz respeito à saúde humana e à defesa da vida, “desde a conceção à morte natural”, criticando “escolhas eutanásicas mascaradas”.

Eliminar vidas humanas não é uma política aceitável para defender o planeta e promover o desenvolvimento humano integral”.

As preocupações do Vaticano centram-se ainda no chamado “inverno demográfico”, sobretudo no Ocidente, pedindo aos Estados que promovam “políticas inteligentes para o desenvolvimento familiar”.

O texto apela ao diálogo entre gerações, à promoção de lideranças juvenis e à educação ambiental desde o início do percurso escolar, estimulando o “contacto com a natureza”.

A mudança proposta a partir da ‘Laudato Si’ inclui a dimensão espiritual, com colaboração entre Igrejas Cristãs e outras comunidades religiosas, para encorajar um “estilo de vida profético, contemplativo e sóbrio”.

Neste campo são propostos “ciclos de reflexão sobre as raízes éticas e espirituais dos problemas ambientais, a partir da ‘Laudato Si’, para que se encontrem visões alternativas aos modelos dominantes, do “paradigma tecnocrático”.

Da catequese à universidade, o Vaticano espera que se estude a “Teologia da Criação”, inserindo as questões ecológicos no quadro do ensinamento moral da Igreja Católica.

Ao mundo académico é pedido investimento no estudo sobre as alterações climáticas, sublinhando a necessidade de investigar o impacto da degradação ambiental nas populações e de reconhecer, juridicamente, a categoria de “refugiado climático”

Num momento de pandemia, o documento destaca os “perigos associados à rápida difusão de epidemias virais e bacteriológicas, num mundo caraterizado cada vez mais por uma forte urbanização e mobilidade”.

O setor bancário e financeiro é convidado a integrar este esforço, dedicando maior atenção à “inclusão social e à defesa do ambiente”.

As propostas pedem o fim dos “paraísos fiscais” para evitar a fuga de capitais e a lavagem de dinheiro.

A 24 de maio, o Papa assinala no Vaticano o sexto aniversário da sua encíclica ecológica e social ‘Laudato Si’.

Os grandes temas da Encíclica verde do Papa Francisco

A encíclica “Laudato si'” [Louvado sejas] do papa Francisco tem 246 parágrafos divididos em seis capítulos e  acrescenta um novo contributo à doutrina social da Igreja.

Ao dirigir-se não só aos cristãos, mas “a cada pessoa que habita neste planeta”, Francisco invoca a “solidariedade universal” para “unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral”.

Bergoglio valoriza as palavras dos predecessores, como é o caso de Bento XVI, de quem reitera o convite a “eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente”.

O texto, que pela primeira vez numa encíclica inclui a citação de um místico do sufismo, Ali Al-Khawwas, destaca também a “contribuição do amado Patriarca Ecuménico Bartolomeu”, em particular no que respeita ao seu apelo à “necessidade de cada um se arrepender do próprio modo de maltratar o planeta”.

O papa propõe o modelo de S. Francisco de Assis, de quem se aprende como são “inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.

O documento fala da poluição, que “provoca milhões de mortes prematuras”, sobretudo entres os países mais pobres, que parecem “ser um enorme depósito de lixo”.

A humanidade “deve tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento”, adianta Francisco. O papa cita “o derretimento das calotas polares e dos glaciares”, a par da “perda das florestas tropicais”.

A perda da biodiversidade é outro dos problemas refletidos no documento. Entre os “lugares que requerem um cuidado particular pela sua enorme importância para o ecossistema mundial”, Francisco menciona os “pulmões do planeta repletos de biodiversidade que são a Amazónia e a bacia fluvial do Congo, ou os grandes lençóis freáticos e os glaciares”.

A deterioração da qualidade da vida humana e da degradação social manifesta-se, por exemplo, no “crescimento desmedido e descontrolado de muitas cidades que se tornaram pouco saudáveis para viver”, seja pela poluição seja pelo caos urbano.

O Papa convida a refletir sobre a “desigualdade planetária”.

“Os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras”; hoje, “qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta”. Diante do esgotamento de alguns recursos vai sendo criado “um cenário favorável para novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações. A política deve estar mais atenta, mas o poder, ligado com a finança, é o que maior resistência põe a tal esforço”.

O Evangelho da criação

No segundo capítulo, Francisco convida a considerar o ensinamento bíblico sobre a criação, recordando que “a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas”, e que para resolver os problemas “é necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade”.

O documento convida a não “igualar todos os seres vivos e a não divinizar a Terra”.

No terceiro capítulo, o papa sublinha a “raiz humana da crise ecológica”, concentrando-se no “paradigma tecnocrático dominante”.

“A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro (…) A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e, muito lentamente, se aprende a lição do deterioramento ambiental. Nalguns círculos, defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais”, do mesmo modo que se afirma que “os problemas da fome e da miséria no mundo serão resolvidos simplesmente com o crescimento do mercado”.

“Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância dum pobre, dum embrião humano, duma pessoa com deficiência – só para dar alguns exemplos –, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. Tudo está interligado.”

“A cultura do relativismo é a mesma patologia que impele uma pessoa a aproveitar-se de outra e a tratá-la como mero objeto (…). É também a lógica interna daqueles que dizem: deixemos que as forças invisíveis do mercado regulem a economia”.

Francisco trata depois da necessidade de “defender o trabalho” humano, que não deve ser substituído com o progresso tecnológico. O verdadeiro objetivo na ajuda aos pobres “deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho”.

A propósito da inovação biológica, são prudentes os parágrafos dedicados aos organismos geneticamente modificados, sobre os quais é “difícil emitir um juízo geral”.

Para uma ecologia integral

No quarto capítulo, Francisco sublinha a importância de uma aproximação integral “para combater a pobreza” e ao mesmo tempo “cuidar da natureza”. «A análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma”.

O papa fala de “ecologia social”, recordando que “vários países são governados por um sistema institucional precário, à custa do sofrimento do povo”.

A seguir, o papa elogia a “criatividade e generosidade de pessoas e grupos que são capazes de dar a volta às limitações do ambiente, modificando os efeitos adversos dos condicionalismos e aprendendo a orientar a sua existência no meio da desordem e precariedade”.

A ecologia humana significa também “ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade”, e por isso “não é salutar um comportamento que pretenda cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela”.

No quinto capítulo, Francisco define como “indispensável um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentável e diversificada, desenvolver formas de energia renováveis e pouco poluidoras”.

O texto alude à “perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, de caráter transnacional, tende a prevalecer sobre a política”, o que requer “instituições internacionais mais fortes (…), com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre os governos nacionais e dotadas de poder de sancionar”. Ao mesmo tempo, cada Estado deve estar atento no seu território e encorajar as boas práticas.

No último capítulo da encíclica, Francisco convida a outro estilo de vida, para evitar que a pessoa acabe por ser esmagada pelo “consumismo obsessivo” e  convida  a olhar também para o positivo que já existe e à possibilidade para os seres humanos de “voltar a escolher o bem”.

O papa pede uma “conversão ecológica” que reconheça o mundo “como dom recebido do amor do Pai”.

A espiritualidade cristã “encoraja um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo”. E “propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco”.

“A ecologia integral requer uma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe manter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que virá depois”, refere.

(Com Ecclesia, Lusa, Vatican News e SNPC)