Por Renato Moura

O passado dia 12 ficou marcado pela cimeira entre o presidente norte-americano Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un. Um acontecimento marcante, pois que precedido de 70 anos de confrontos políticos, 25 anos de tensão por causa do programa nuclear de Pyongyang, por sanções económicas… Um evento que embora anunciado com espavento, há muito pouco tempo parecia improvável face aos recuos, às novas ameaças, ao previsto cancelamento. Um encontro aparentemente impensável entre líderes que ameaçavam de extermínio!

Memoráveis Sentosa e Singapura, a cidade e o país que ficam para a história por ali se ter assinado o documento de compromisso para estabelecimento entre os EUA e a Coreia do Norte de uma relação e união de esforços que promova a paz duradoura e a prosperidade, envolvendo a completa desnuclearização, que se pretende verificável e irreversível, da península coreana. Há razões para ter esperança no advir.

A imagem que trespassa é a de que se pretende apagar os erros do passado e construir uma nova era, todavia sem querer fazer mágoa em tempo de festa, a verdade é que se trata de dois líderes dominadores, com sucessivas e sobejas provas de exercício do poder pessoal levado aos limites, comprovadamente contraditórios e imprevisíveis. O sucesso será durante muito tempo de papel, só se efectivará com promessas cumpridas e fracassará perante a fragilidade de se procurarem motivos para acusação. Trump e Kim terão surpreendido; e a realidade futura também, para o bem e para o mal.

Nenhum acordo é integral quando na sua base estiverem apenas o medo ou a ânsia de desenvolvimento.

Peço licença para citar José António Saraiva, num douto escrito desta semana, que não teria relação com a cimeira, sobre o “progresso imaterial”, ou moral, ou espiritual. E desenvolve: “Há uma dimensão espiritual que se manifesta no amor, ou na contemplação da arte, ou na leitura, ou na criação literária ou artística” e acrescenta “noutro plano cultiva princípios e valores como a verdade, a honestidade, a solidariedade, o respeito pelos outros seres humanos”. É preciso tudo isto para fundar o alicerce de “início de um novo futuro” prometido por Trump e para concretizar a afirmação de Kim Jong-un: “Os dois países devem comprometer-se a não se antagonizarem e compreenderem-se mutuamente”. Os dois e não só.

Pois se o encontro foi “melhor do que qualquer um poderia imaginar”, como referiu Trump – e na realidade foi – importa agora avançar com passos sinceros, sérios e seguros, onde os direitos do homem prevaleçam sobre economia.