Por Carmo Rodeia

Os Açores viveram no domingo mais um ato eleitoral em que o PS renovou a maioria absoluta com 46,4% dos votos, mas com um resultado pior do que há quatro anos.

O PSD obteve 30,8%, um dos piores resultados de sempre. O CDS alcançou 7,1%, BE 3,6%, CDU 2,6%, PPM 0,9%.

A abstenção atingiu 59,16%, um recorde absoluto nestes sufrágios, superando os 53,34% de abstenção em 2008, que era até agora o valor mais elevado.

Descontando os chamados “eleitores-fantasma”, que integram os cadernos eleitorais, e ainda uma série de causas como a atitude perante o poder político e os políticos, o modo como decorreu a campanha (oferta política, o ritmo, estilo ou o próprio tom dela), uma ausência em serviço (que a lei não prevê ao contrário do que acontece com determinados profissionais e os estudantes que estão fora, e que podem requerer o voto antecipado) e ainda outras causas mais comezinhas, como a meteorologia ou o comodismo, a verdade é que os portugueses tendem a votar cada vez menos.

Nas últimas eleições legislativas, em 2011, a taxa de abstenção foi de 41,9%, quando em 1983, por exemplo, foi apenas de 25,7%, segundo dados da Pordata. Portugal é, de resto, um dos países da União Europeia com maior taxa de abstenção, estando próximo das democracias pós-comunistas da Europa central e oriental.

Podemos encontrar milhentas razões para o justificar: o descontentamento com os partidos do Governo e com a classe política, que, em Portugal, contrariamente ao que acontece em algumas democracias (em que o eleitor descontente opta por votar em partidos novos, populistas ou de protesto), leva a que o eleitor mais distante e despolitizado não vá votar. Ou o tipo de eleição. As taxas de abstenção mostram que os eleitores percecionam as diferentes eleições de forma diferente, hierarquizando-as consoante a importância que têm para a sua vida e o modo como interferem no seu quotidiano. Daí que as eleições para o Parlamento Europeu, por exemplo, sejam as menos votadas, com níveis de abstenção acima dos 60%. Mas em eleições regionais? Uma taxa a rondar os 60%?

Envolver-se na política “é uma obrigação para um cristão” diz o Papa Francisco lembrando que os cristãos não podem “fazer de Pilatos, lavar as mãos”: “Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum”, frisa Francisco.

E prossegue, “Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil. Mas também não o é tornar-se padre. A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas… mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão”, esclarece.

Lamentavelmente há muitos de entre nós que não entendem a diferença entre política e dinâmicas partidárias.

O termo “política” vem da palavra grega “pólis“, que significa “cidade“. Originalmente, a política é a “gestão da cidade”, da comunidade, da vida social, focada no bem comum. Essa gestão, obviamente, requer a participação de todos os cidadãos.

“Política” é, portanto, o exercício do poder de decisão: seja o poder pessoal de decisão sobre a própria vida, seja o poder de participar nas decisões da própria comunidade. Todo o ser humano é, por isso, um ser político.

Quando Jesus Cristo nos assegurou que somos todos filhos de Deus Pai e nos convidou a “amar-nos uns aos outros como Ele nos ama” convida-nos a um compromisso com o outro e a um empenho na luta pelo bem comum.

Participar na vida pública, contribuir para a discussão e para a tomada de decisões é assumir esse compromisso.

No conto ‘Tristeza”, Tchékov fala-nos do “valor da escuta” e da necessidade de “aprender a escutar” bem como da dimensão “terapêutica da presença” que se aprende com os outros, sobretudo com os mais pobres. Era um bom remédio para os políticos e para nós, que não nos devíamos de demitir de lutar pelo menos por eles, os mais pobres. Só isso já valia o esforço de votarmos. Seria uma boa maneira de sermos mais uma igreja em saída, presente no mundo.