
Leão XIV afirmou hoje, no voo de regresso a Roma após a sua viagem a África, que nunca pode ser a “favor da guerra”, condenando as execuções do regime iraniano e apelando ao diálogo entre nações.
“Como pastor, não posso ser a favor da guerra. Incentivo todos a esforçar-se para procurar respostas que venham de uma cultura de paz, não de ódio e divisão”, disse aos jornalistas, no voo entre a capital da Guiné Equatorial e Roma.
Depois das polémicas com o presidente norte-americano, Donald Trump, que marcaram o início da viagem à África, o pontífice contou uma história pessoal para ilustrar a sua oposição à violência.
“Trago comigo a foto de um menino muçulmano que, durante minha visita ao Líbano, me esperava com um cartaz que dizia ‘Bem-vindo, Papa Leão’. Agora, nesta última fase da guerra, foi morto”, relatou.
Perante cerca de 70 jornalistas, o Papa foi questionado sobre as tensões geopolíticas no Médio Oriente, nomeadamente o conflito envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos.
“Há toda uma população no Irão de pessoas inocentes que estão a sofrer com essa guerra. Então, sobre a mudança de regime, sim ou não: não está claro qual o regime que existe neste momento, após os primeiros dias dos ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irão”, indicou.
“Em vez disso, eu gostaria de incentivar à continuação do diálogo em favor da paz, que as partes se esforcem para promover a paz, afastar a ameaça de guerra e para que o direito internacional seja respeitado”, disse.
O Papa lamentou que a resposta imediata aos conflitos seja frequentemente a violência.
“A questão não é se o regime muda — o regime não muda —, a questão é como promover os valores em que acreditamos sem a morte de tantos inocentes”, declarou Leão XIV.
O Papa partilhou o impacto de ler cartas de famílias que perderam os filhos nos ataques, condenando a morte de “muitos inocentes”.
Confrontado com as recentes execuções de opositores pelo regime iraniano, o pontífice foi perentório na defesa da vida.
“Condeno todas as ações injustas. Condeno o assassinato de pessoas. Condeno a pena de morte”, afirmou, reiterando que a vida humana deve ser protegida “desde a conceção até à morte natural”.
“Quando um regime, quando um país toma decisões que tiram injustamente a vida de outras pessoas, isso é evidentemente algo que deve ser condenado”, acrescentou.
Durante a conferência de imprensa, o Papa explicou ainda a postura da Santa Sé perante governos autoritários, após ter visitado a Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial, entre 13 e 23 de abril.
Leão XIV esclareceu que a manutenção de relações diplomáticas não significa que a Igreja aprove esses regimes, destacando o esforço para intervir nos bastidores.
“Há muito trabalho a ser feito nos bastidores para promover a justiça, para promover causas humanitárias, para procurar, às vezes, situações em que há presos políticos e encontrar uma maneira de libertá-los”, declarou.
O Papa desafiou, ainda, as nações mais ricas a investirem no desenvolvimento dos países do Sul, denunciando a exploração de recursos em África e o tratamento desumano dado aos migrantes nas fronteiras.
“Uma resposta minha começa com uma pergunta: o que faz o Norte do mundo para ajudar o Sul do mundo ou aqueles países onde os jovens hoje não encontram um futuro e, por isso, vivem esse sonho de querer ir para o Norte?”, questionou Leão XIV, em declarações aos jornalistas no voo de regresso a Roma, desde a capital da Guiné Equatorial.
Perspetivando a futura viagem à Espanha, na qual se vai encontrar com migrantes nas Canárias, o Papa classificou a migração como um “fenómeno mundial” complexo.
No final da sua primeira viagem a África, Leão XIV apontou o dedo à exploração económica do continente, considerando que é visto frequentemente como “um lugar onde se pode ir buscar minerais, extrair as suas riquezas para a riqueza de outros”.
O pontífice apelou a um esforço global que envolva ajuda estatal e investimentos de multinacionais para promover o desenvolvimento local, evitando que as populações “tenham a necessidade de emigrar”.
Embora o Papa tenha reconhecido que “um Estado tem o direito de estabelecer regras em suas fronteiras” para evitar a desordem, foi categórico na defesa dos direitos humanos daqueles que tentam atravessá-las.
“São seres humanos e devemos tratar os seres humanos de maneira humana, não tratá-los muitas vezes pior do que aos animais”, denunciou.
Leão XIV sublinhou que, mesmo quando um país declara ter atingido o limite da sua capacidade de acolhimento, as pessoas que chegam “merecem o respeito que cabe a todo ser humano por sua dignidade”.
No final da conferência de imprensa, o Papa adiantou ter “um grande desejo de visitar vários países da América Latina”, embora os destinos ainda não estejam oficialmente confirmados.
O Papa concluiu hoje na Guiné Equatorial a sua maior viagem internacional, onde exigiu o fim da exploração em África e o respeito pela dignidade humana, condenando políticas de opressão e exclusão.
O périplo de onze dias, que percorreu a Argélia, os Camarões, Angola e a Guiné Equatorial, mobilizou multidões e deixou mensagens contundentes contra a exploração económica e os interesses instalados no continente.
(Com Ecclesia)