Pelo Padre José Júlio Rocha

Quanto tempo passaste, ontem, diante de um ecrã? Não te julgo. Sugiro que faças as contas, o teu smarphone vai dizer-te quanto. Mas falta o tempo que passaste diante do televisor, do iPad, do computador. Talvez seja um pouco pavoroso. O ecrã é, hoje, um dos maiores amputadores da liberdade pessoal.
Os dois mais famosos romances distópicos do século XX são “Admirável Mundo Novo” (1932) de Aldous Huxley, que eu li, sofregamente, numa noite de 1989, e “1984” (1948) de George Orwell, que li, com terror, mais tarde. Há uma diferença razoavelmente brutal entre os dois: “1984”, inspirado na ditadura de Estaline e de Hitler, narra um mundo futuro onde a liberdade é totalmente suprimida, todos os homens estritamente vigiados, filmados, obrigados a olhar para o ecrã que lhes ensina a verdade, lhes suprime a verdade, lhes muda a verdade, lhes molda a verdade. São prisioneiros e sabem que o são. “Admirável Mundo Novo” nasce do estudo de Huxley sobre a sociedade americana de entre guerras e do seu “american dream”. Ele imaginou um futuro em que te dariam tudo o que precisarias, o que desejarias, o que te apetecia para a tua satisfação imediata. Não serias obrigado a olhar para um ecrã, tu mesmo não queres desviar os olhos de um ecrã. Então, a tua felicidade seria a tua própria jaula. Estarias preso e feliz por estar preso, sem dares conta da tua prisão. No romance de Aldous Huxley, uma sociedade de castas criada em gigantescos laboratórios feliz porque foi formatada para ser feliz. Algures no México habita a última colónia de humanos naturais (como nós), uma espécie de reserva que os humanoides do futuro vão visitar e ver, por fora, como era o mundo dos homens anteriores, o que era essa coisa estranha chamada família, o que era o trabalho, o que era o chorar e o sofrer, o não entender o mundo, enfim, todas as realidades com que nós vivemos hoje e que eles já não têm e que, para esses humanoides do futuro, constitui uma grande surpresa: como é que se sofria tanto!
Meu avô Rocha desposou minha avó Olívia nos idos de 1935, voam já 91 anos. Nessa altura, nem eletricidade havia na aldeia e meu avô saia de casa, descalço, ainda não nascia o sol, com uma fatia de pão de milho e um chicharro seco como almoço. Regressava das vinhas já sol posto, jantava com a mulher e os filhos, rezava o terço e ia para a cama. De então para cá, a vida e o mundo evoluíram de tal forma que nos parece impensável. Pergunta: somos mais felizes hoje? E porquê?
A questão é que avançámos quase só em termos de ter e poder, quando a felicidade está no dar e no dar-se. Entregamo-nos de tal maneira à sedução do ter e do poder que já nem damos pela nossa auto escravatura. Se te dão tudo o que desejas, satisfação imediata e distração até quase ao infinito, uma coisa é certa: já não sabes onde estás. Estás numa gaiola convencido de que estás voando como uma águia.
Já não dominamos grande parte das nossas decisões e até dos nossos pensamentos. Para nosso conforto, o algoritmo encarrega-se disso. Menos trabalho, menos preocupações, menos decisões, mais prazer. E cá estamos nesta ponta de civilização, em ponto rebuçado para que a inteligência artificial faça, em nós, o seu caminho. Leão XIV advertiu para esses perigos, nomeadamente a IA e os seus (nossos) dados ficarem nas mãos de bilionários ou de grupos financeiros ou empresas ou, talvez pior, nas mãos de tiranos. Onde estaremos daqui a 50, 60, anos? Nas mãos de quem? Quem vai precisar da humanidade, do seu pensamento ou do seu trabalho, quando a inteligência artificial e os seus soldados para nada precisarem de nós? Continuaremos, pelo menos, humanos? Ou já estaremos nós, já hoje, numa espécie de aquário, com a sensação de horizontes infinitos, quando quem nos olha de fora nos vê como prisioneiros nas nossas próprias águas?
Leiam a Encíclica “Magnifica Humanitas”, onde se percebe que a Igreja já há muito anda preocupada com a questão da inteligência artificial. Os “grandes” homens da política, esses, estão preocupados em sobreviver até depois de amanhã.
( Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do jornal Diário Insular)