A opinião é do Pe José Medeiros Constância, atual Ouvidor de Ponta Delgada e responsável pela Pastoral Familiar na Diocese de Angra. Foi o “repórter” da Igreja durante a visita de João Paulo II a Ponta Delgada, em maio de 1991.

Portal da Diocese (PD)- Que recordações guarda da visita do Papa João Paulo II?

 

Pe José Constãncia (Pe.JC)- Tenho uma recordação belíssima. Foi um dia inesquecível para a nossa Diocese. No meu caso pessoal foi um reencontro com o Papa com quem já tinha estado em Roma, quando estive na Universidade. Na tarde do dia 11 de maio, foi diferente porque vivi a visita como comentador da RTP Açores pois, juntamente com a jornalista Conceição Tavares, levámos até aos açorianos todos os momentos desta visita papal desde a chegada ao aeroporto até à partida sem esquecer o grande momento de explosão no Campo de São Francisco.

PD- Do ponto de vista afetivo e eclesial esta visita foi um ponto alto para a Diocese. Que marcas concretas é que ela deixou?

 

Pe JC- Pensando a diocese como uma comunidade de pessoas, julgo que no interior de cada pessoa ficou, de facto, uma marca indelével. Para além disso, há um contexto que importa referir do ponto de vista da vida eclesial. A diocese tinha acabado de reconstruir a sua Catedral e estava a preparar o congresso de leigos. E, o primeiro apelo do Papa foi no sentido da reconstrução da igreja, enquanto comunidade diocesana.

 

PD- Esse “reconstrói-te” foi conseguido?

 

Pe. JC- Sim, porque a Diocese estava muito empenhada no congresso de leigos e por isso estava particularmente ativa. Até à sua realização, tudo foi acontecendo de uma maneira rápida e intensa. Aliás, diria mesmo que até hoje foi, talvez, a maior assembleia, com mais de 200 pessoas. Portanto, a mobilização foi absoluta e o congresso de leigos – julgo que pode ser dito assim- foi a concretização mais visível das sementes deixadas por esta visita papal.

PD- Quais foram os frutos dessa assembleia?

 

Pe JC- As conclusões foram muito claras. Primeiro que a Diocese tivesse um plano, um caminho comum. Segundo que se trabalhassem as áreas da família e da juventude. Aliás, foi a partir destas conclusões que se criou o plano de intervenção da diocese nos anos seguintes.

A seguir a este congresso não houve, do ponto de vista quantitativo, uma assembleia tão grande mas houve uma sequência lógica do trabalho diocesano com a criação de uma nova estrutura, onde os leigos estão muito presentes, assente no conselho pastoral diocesano, nos conselhos pastorais de ouvidoria, nos conselhos pastorais paroquiais… ou seja 20 anos depois ainda vivemos as consequências deste congresso de leigos e, sobretudo desta mobilização, para a qual a visita do Papa João Paulo II também foi importante.

PD- Sinto alguma simpatia nesse trabalho. Está na hora de o repetir, isto é, promover um novo congresso de leigos, fazendo a ponte entre aquilo que foi o apelo à reconstrução da igreja açoriana por João Paulo II e agora de uma forma mais abrangente, para a igreja universal, pelo Papa Francisco?

 

Pe. JC- Está na hora de fazermos a ponte entre aquilo que nos pede a nossa igreja local, na base, e aquilo que nos é proposto para a Igreja Universal. E partindo daqui, com este novo pontificado, que chega justamente durante o ano da Fé que celebra os 50 anos do Concílio Vaticano II, devemos materializar, como julgo ser a intenção do Papa Francisco, a grande proposta do Concilio que é o Evangelho na vida.

 

 

PD- De resto, o Papa Francisco é muito claro nisso. Mas do ponto de vista diocesano, que desafios estão na primeira linha?

 

Pe. JC- Nós estamos com 20 anos de Plano Pastoral; temos problemas pastorais de base, no sentido de ampararmos as famílias e, por isso, o que se nos pede, mais do que um grande acontecimento, é refletirmos sobre a prioridade que julgo ser a família. Julgo que os órgãos diocesanos, fazendo respirar o que vem da base, é que devem decidir o que deve acontecer. Considero que todas as possibilidades são possíveis seja ao nível diocesano seja ao nível das ouvidorias. Se calhar não é preciso nem um sínodo diocesano nem um congresso de leigos. O mais necessário é irmos ao encontro daquilo que são as necessidades das bases e,  essas são muito concretas.

 

 

Acresce que, neste momento, estamos a pouco mais de dois anos do fim do ministério episcopal do atual Bispo e por isso aguardemos o que é que o D. António vai decidir.

 

 

PD- Mas esses momentos são sempre muito mobilizadores, as estruturas são obrigadas a mexerem-se…

 

Pe. JC- Sem dúvida… mas repare o que aconteceu há 20 anos foi um momento único que aconteceu em todas as dioceses. Aliás, o nosso congresso foi o último. Hoje, o que está acontecer de novo- e mais de metade das dioceses já o fez- é o sínodo diocesano. Pessoalmente, acho que mais importante que isso é nós, enquanto igreja, refletirmos e analisarmos o que a comunidade nos pede e depois tomarmos as decisões sobre o caminho a seguir. Porque corremos o risco de explodirmos num grande acontecimento e ele não corresponder depois, na prática, áquilo que as bases nos pedem.

PD- Na missa crismal da semana santa, D. António pedia aos pastores que fossem ao encontro das pessoas e escutassem o que elas têm para dizer. O que é que as pessoas dizem e querem da Igreja?

 

Pe. JC- As pessoas estão muito tomadas pelas suas necessidades concretas que são materiais e espirituais. E, querem encontrar na igreja uma espécie de porto de abrigo, uma resposta para os problemas do dia a dia. Ora, enquanto pastores devemos dar essa palavra mas também fazer a pedagogia perguntando a essas pessoas que são igreja, como é que a sua vida, a sua igreja doméstica sente a igreja. Portanto, o grande desafio de hoje, como ontem, é estarmos próximos das pessoas, entendendo as suas necessidades e tendo a capacidade mobilizadora para que sejam elas também a fazer parte da resposta que a igreja lhes dá. Só assim igreja será muito mais mobilizadora.

PD- Esta é a atitude proposta pelo Papa Francisco. Sentiu durante o Pontificado de João Paulo II esta atitude “conciliar”?

 

Pe. JC- Os dois são líderes. João Paulo II devolveu muita segurança à Igreja, numa época de grande instabilidade, ele foi capaz de trabalhar pela Paz, Justiça e pela civilização do amor. Hoje o Papa Francisco retoma esta luta num contexto diferente, em que o mundo se divide entre ricos e pobres, com um fosso muito grande e ele tem procurado mobilizar a igreja para ser uma resposta a este problema das desigualdades. Cada um com o seu temperamento foram e são líderes, sem dúvida.

 

 

PD- O Espírito Santo tem sabido inspirar a Igreja para escolher os seus líderes…

 

Pe. JC- Sim…nos últimos 50 anos todos os papas estiveram envolvidos no Concílio, desde João XXIII que o convocou, a Paulo VI que o levou para a frente, a João Paulo I, João Paulo II… embora neste pontificado é bom sublinhar que houve avanços e recuos. Aliás, em 85, o próprio Papa teve necessidade de convocar um sínodo para repor a linha conciliar.

PD- João Paulo II lidou bem com as “dissidências”?

 

Pe. JC- Foram momentos de grande tensão com os seguidores de Monsenhor Lefebvre, sem dúvida. Dentro da própria Igreja houve um restauracionismo, com o reforço da instituição e, portanto, não foram tempos fáceis.

PD- Que semelhanças encontra entre João Paulo II e Francisco?

 

Pe. JC- Ambos são Bispos de Roma e exercem o ministério da comunhão universal. A missão é a mesma, mas os temperamentos são diferentes, desde logo porque se formaram em igrejas diferentes, com tempos e ritmos diversos. Um vem de leste e outro da América Latina. Isso marca muito o desempenho e o estilo pastoral.

 

PD- Viveu os primeiros anos do pontificado de João Paulo II em Roma. Como é que era a visão do mundo a partir de Roma?

 

Pe. JC- Tinha-se esperança, não só pela sua coragem mas sobretudo pela sua coerência. Se tivesse de destacar a principal virtude de João Paulo II eu diria que era a coerência. Como cristão, como sacerdote, como Papa, como líder… a coerência era cristã e de temperamento.

PD- É esse o seu principal legado?

 

Pe. JC- Sim, pelo menos para os jovens. Houve uma coerência enorme em todas as suas decisões, independentemente de se concordar com a linha escolhida, João Paulo II foi um homem coerente do princípio ao fim. Acresce a esta coerência o facto de ter sido um peregrino, projetando a igreja não só do ponto de vista espiritual mas também do ponto de vista político e diplomático. João Paulo II foi de facto alguém que desenvolveu de uma forma absolutamente abrangente a dimensão social da fé.

PD- Como comentador da visita papal que explicação encontra para esta deslocação de João Paulo II aos Açores?

 

Pe. JC- Visitando Portugal e tendo tido um convite duplo do Bispo Diocesano e do próprio Presidente do Governo Regional da altura, fazia sentido. Depois, há a vontade de João Paulo II de visitar todos os recantos do mundo. Foi, de facto, uma conjugação feliz, a do convite com a vontade própria. Para ele as viagens eram fundamentais como pastor para confirmar os seus irmãos na fé.

 

PD- O convite do Papa João Paulo II aos jovens – Não tenhais medo- continua a ter atualidade?

 

Pe. JC- Sim, porque é não ter medo de ser cristão. Apesar de tudo e de todas as liberdades, ainda é preciso ter coragem para falar de Cristo, para testemunhar. Julgo que o Cristianismo ainda hoje é mártir… há determinadas partes do mundo onde ser cristão é ser mártir. E, mesmo onde não há perseguição religiosa, ser-se cristão no trabalho, na família, na vida, tem esta leitura. O cristianismo exige coragem. Por isso, o apelo do Papa continua com uma grande atualidade seja do ponto de vista individual seja comunitário.

 

PD- Que mensagem deixa neste dia de canonização a propósito de João Paulo II?

 

Pe. JC- Sobretudo um apelo muito forte à santidade. Os dois papas- João XXIII e João Paulo- são chamados à santidade, são heróis pela  qualidade da sua vida espiritual. E isto é o que o cristianismo nos pede a todos: que tenhamos a capacidade de viver as exigências da vocação baptismal, na santidade. Não se trata de uma palavra queimada. É o caminho normal de todos nós cristãos. Canonizar estes dois papas é recordar a igreja toda e sobretudo a sua vocação para a santidade. Por isso o apelo que fica hoje é olharmos para eles e seguirmos o seu exemplo.