Ocorre, no próximo 13 de março, o 2º aniversário da eleição do Papa Francisco.

Foi-me pedido um breve testemunho, em jeito de avaliação pessoal do que me consta terem sido estes dois anos de Pontificado e, de consequência, das perspetivas em aberto.

Conheci pessoalmente o Papa Francisco, quando trabalhei na Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e ele fazia parte desse Dicastério como Arcebispo de Buenos Aires. Já então me interpelava o seu estilo de relação fácil, próxima, de imagens eficazes e ditos cheios de fino humor. Cultivava ele facilmente a amizade, sem olhar a graus, cargos e hierarquias e, desde então – modéstia à parte – o tratava por amigo, mais que por Sua Eminência. Era ele naturalmente o candidato por quem eu torcia no conclave que elegeu Bento XVI. Mas, dada a sua idade, em 2013 não contava que fosse eleito, donde a minha surpresa e compreensível satisfação.

O Papa Francisco desde o primeiro contacto com os fiéis na Praça de São Pedro, após a sua eleição, e nos gestos dos dias imediatos, confirmou o que sempre fora: uma pessoa muito próxima, simples, de linguagem familiar e sugestiva, conjugando bem a intelectualidade e racionalidade jesuítica e europeia, com proximidade franciscana e a cordialidade, um tanto exuberante, da América Latina. Era o que muitos esperavam, até para bem do Primado, que ultimamente bem se tem esforçado, no estilo do seu exercício, por se envolver no povo de Deus, a cujo serviço se destina, e fazer-se compreender e amar, mais que venerar, por ele.

Já João XXIII maravilhara e cativara com os seus gestos de proximidade e cordialidade; Paulo VI, de feitio reservado, garantira a continuidade do espírito do Vaticano II: diálogo a todos os níveis, participação e essencialidade; João Paulo I, no seu Pontificado de um mês, também conquistara a Igreja e o mundo com o seu sorriso e esperança de continuidade na linha da renovação; João Paulo II com as suas inúmeras viagens e rica humanidade, também aproximara o Papado da periferia; Bento XVI, possuidor de uma afabilidade e sensibilidade mal conhecidas, também fora uma esperança de renovação, que acabaria por ter pouca expressão, sobressaindo-lhe porém aquele gesto de humildade e serviço, imensamente eloquente, que foi a sua renúncia; com ele mostrou um profundo sentido de ser pastor, de estar ao serviço. Papa Francisco continua a acalentar-nos a esperança de uma mudança radical em diversos pontos; parece vir encurtar os duzentos anos de atraso em que a Igreja, na corajosa denúncia do Cardeal Martini, se encontra em relação aos tempos presentes.

Os discursos e gestos do atual Papa têm tido uma ressonância e acolhimento inegáveis, não só na Igreja, mas sobretudo nas periferias da mesma e na imensa multidão de não baptizados ou não praticantes e de agnósticos que para ela olham com uma certa curiosidade, e alguns mesmo com simpatia e esperança. Também reconheço que, no seio da mesma Igreja, medram reservas e temores, sobretudo nos que se sentem ameaçados nos seus esquemas de pensamento e de valores, bem ordenados e seguros.

A minha especialização, embora modesta, em História da Igreja e a sorte que a vida me deu de viver grande parte dela em ambientes e experiências de internacionalidade, nomeadamente na Santa Sé e com confrades e colegas dos vários continentes, inclusive da América Latina, aliadas a uma evolução de visão e de avaliação a que a idade me tem forçado, levam-me a olhar com imensa esperança para o Pontificado do Papa Francisco; os seus discursos e gestos confirmam a expectativa. Também a maneira como está a conduzir o processo de uma fidelidade “dinâmica”, aberta e atenta também ao destinatário, e não unicamente à fonte; a escolha dos colaboradores e as etapas que estabelece no percurso, fazem-me esperar que ele sabe o que quer e para onde vai. O sair para as periferias não me soa a expressão de moda; é uma exigência vital para a Igreja e para o Evangelho que ela tem de transmitir às gerações do nosso tempo, para não falar das futuras. A Igreja terá forçosamente de acelerar a caminhada para encurtar o dito atraso. A própria evangelização, que tanto se apregoa que deva ser nova, nomeadamente também e sobretudo na expressão, o exige. O serviço ao Evangelho – mais que às próprias seguranças – reclama que se atenda ao teminus ad quem (aos destinatários), e não apenas ao terminus a quo (ao património a transmitir). O Pontificado do Papa Francisco, sempre a meu ver, tem tido e sido essa mais-valia. Nesse sentido, espero muito da próxima Assembleia Sinodal, que, ao menos para mim, terá um significado de prova real. Mas também espero que se o Papa “que veio do fim do mundo”, de longe, da periferia, não tiver tempo de ver a mudança que acalentou e fortaleceu, o sinal está dado e não faltará quem, na estafeta da história da Igreja, lhe tome o testemunho. Creio firmemente na existência e ação do Espírito Santo, que parece não desdizer a dialética hegeliana da tese-antítese-síntese. Poderá haver aparentes recuos, travagens, mas a navegação é para a frente! A história certamente o confirmará.

Pe João Bairos