«Agora sei que não há Deus em toda a terra, senão em Israel».

Esta expressão, da boca do Sírio Naamã, quando foi curado nas águas do Jordão (2º Livro dos Reis), foi lida na liturgia da passada segunda-feira, nove de Março. As interpretações podiam ser várias, mas em Israel, ao tempo de Jesus, havia uma vivência muito literal dessa ideia. Mais perniciosa do que o politeísmo, seria a ideia de que o Verdadeiro Deus, o Único Deus Verdadeiro, era Deus só de Israel, deixando o resto dos humanos sem divindade a quem adorar.

No Evangelho do mesmo dia, Jesus condena essa ideia, afirmando que nenhum profeta é bem recebido na sua terra e que, apesar de haver muitas viúvas e leprosos em Israel, Deus atendeu viúvas e leprosos estrangeiros. Todo o Evangelho está impregnado da ideia de que Jesus veio para que Deus fosse o Deus de toda a humanidade e não apenas Deus de Israel.

Num certo sentido, Francisco apela claramente a essa mensagem de Jesus, sobretudo num dos vectores mais claros do seu pontificado: a Igreja é Missão. A função primordial da Igreja é ser missionária: levar o nome de Jesus a todos os corações humanos; sair de si.

Certos gestos simbólicos do nosso Papa nesse sentido ainda agora nos comovem: um lava-pés em que um dos “apóstolos” é uma jovem marginal muçulmana a quem o Papa beija o pé direito; o estar de pé silencioso, em Lampedusa, cara a cara com o mediterrâneo, gigantesco cemitério de inocentes, afirmando que os filhos que ali morreram também são nossos filhos, os irmãos, nossos irmãos; A afirmação de que o pastor deve ter em si o cheiro da ovelha, clara alusão à proximidade, imersão do pastor até às entranhas na sua missão. Muitos outros exemplos ficam por dar.

Muito para além da imagem do Papa que sorri ao mundo, duro no que tem que mudar, do Papa que abriu avenidas de comunicação, do Papa que é uma das muito poucas personalidades universalmente aceites, encontramos Francisco, o Papa que proíbe a Igreja de olhar para o seu umbigo: há um mundo inteiro para salvar e há que “sair de casa”.

No capítulo 9 de São Mateus, vemos Jesus, em debate com os fariseus, a parafrasear Oseias: “Eu prefiro a misericórdia ao sacrifício”. Nas religiões antigas, ofereciam-se às divindades sacrifícios de animais em longos e pesados rituais, julgando-se poder aplacar ou “satisfazer” as divindades com tais cerimónias. A “nova religião”, já propugnada pelos profetas, anuncia a secundarização do sacrifício em nome da misericórdia, sobretudo para com os órfãos e as viúvas. Com Jesus, passa a haver um único Sacrifício: a oblação eucarística de Cristo, na Cruz e no Altar. E não somos nós que o fazemos, foi Cristo que o fez por nós. Cabe-nos celebrá-lo, como momento supremo da nossa fé. E não ficar por aí. Cabe-nos a misericórdia, o capítulo 25 de São Mateus, que indica as verdadeiras razões pelas quais seremos salvos.

O Papa Francisco, na continuidade dos pontificados do Século XX e XXI, é pai e mestre a apontar esse caminho. Ao chamar as periferias da humanidade para o coração da Igreja, a clamar para que não nos fiquemos apenas nos belos discursos e programas, tipo “nova evangelização” ou “opção preferencial pelos pobres”, Francisco é, na verdade, e neste momento, o pastor que precisamos para a Igreja.

 

Pe Júlio Rocha, Professor de Teologia Moral no Seminário e cronista do Sítio Igreja Açores