Por Carmo Rodeia

Paulo VI, como é apanágio dos verdadeiros profetas, mais do que um homem do seu tempo, foi um homem de Deus, e por isso é um homem de todos os tempos.

Lúcido e audacioso, o Papa que ontem foi canonizado, como já tinha sido também o Papa João XXIII, conseguiu fazer ver ao mundo as posições da igreja e,  dentro dela, impor aquilo que foi um rasgo do seu predecessor, prosseguindo e levando à prática as decisões do Concilio Ecuménico Vaticano II, mesmo debaixo de uma forte oposição.

Começou uma séria e profunda reforma da Cúria Romana;  internacionalizou-a; preocupou-se com a paz, com a guerra e com a justiça e produziu importantes documentos  de que destaco a encíclica Populorum Progressio.

Paulo VI foi, ainda, o primeiro papa dos tempos modernos a sair do Vaticano, deslocando-se numa série de viagens carregadas de simbolismo, como Jerusalém, Índia, Fátima, Istambul, além de uma presença em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, onde discursou.

Atento ao mundo, tomou uma posição face aos movimentos de libertação e descolonização  que não foi bem aceite pelas instâncias oficiais, incluindo Portugal, que não viu com bons olhos a decisão da sua visita para o Cinquentenário das Aparições, ainda que o fizesse a titulo pessoal e pastoral.

As “novas fronteiras” cruzadas pelo Papa Paulo VI, e que ontem foram referidas, uma por uma, na homilia da missa de canonização pelo Papa Francisco, impelem a igreja, e os cristãos em particular, a estarem atentos ao mundo, às suas necessidades e interpelações.

“(São Paulo VI) consumiu a vida pelo Evangelho de Cristo, cruzando novas fronteiras e fazendo-se testemunha dele no anúncio e no diálogo, profeta duma Igreja virada para fora, que olha para os distantes e cuida dos pobres”, disse Francisco que não esconde a simpatia e a identificação com este Papa, que  explicitou a propósito do desenvolvimento que não bastava o crescimento económico das nações; era preciso desenvolvimento, instrumento essencial da paz, pois onde não há desenvolvimento não pode haver paz. Os dias do mundo de hoje no-lo dizem.

“Temos de nos apressar: Há muitos homens a sofrer e cresce a distância que separa o progresso de uns da estagnação e até da regressão de outros”, disse e escreveu São Paulo VI, há 50 anos, numa formulação que está longe de ter sido resolvida: persiste a  humanidade ferida,  a sofrer e cresce a distância que separa o progresso de uns, da estagnação e até da regressão de outros. Recordo que os oito homens mais ricos do mundo possuem tanta riqueza quanto as 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre do planeta, segundo a ONG britânica Oxfam.

A encíclica Populorum Progressio (O Desenvolvimento dos Povos) provocou espanto entre muitos pelo programa que oferecia e pelos alertas que deixava, mas não se eximiu de apontar para alguns perigos:  “Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência”.

“Os povos que ainda há pouco tempo conseguiram a independência nacional sentem a necessidade de acrescentar a esta liberdade política um crescimento autónomo e digno, tanto social como económico”, acrescentava advertindo para os perigos de um liberalismo cego que “esmaga” ou como disse mais recentemente o Papa Francisco “mata”.

 

Ao invés, acrescentava, o crescimento tem de ser universal. Aliás, em bom rigor esta encíclica, considerada como uma amplificação do capítulo sobre a vida económica e social, da Gaudium et Spes, traça as coordenadas de um desenvolvimento integral do homem e um desenvolvimento solidário da humanidade, uma espécie de humanismo total, orientado por valores espirituais, fazendo jus à profunda espiritualidade e proximidade das pessoas, atributos essenciais do Sumo Pontífice.

Muito do que se diz nesta encíclica é replicado por Francisco na Alegria do Evangelho ou na Laudato Si o que, infelizmente, demonstra que  não foi assumido pela generalidade dos homens, incluindo os que nos dizemos cristãos.

O desafio deixado por Paulo VI de trabalhar na promoção da paz sem remeter-se a uma caridade particular, de microrrelações, ignorando a necessidade de atuar, com justiça, sobre as condições sociais, económicas e políticas  dos povos está por cumprir.

Pode ser que a sua colocação nos altares da igreja remeta para um estudo mais aturado dos documentos do seu magistério e consequentemente o seu exemplo de santidade, mais do que um testemunho, seja um programa para todos nós em nome da Paz, no mundo e no interior do coração de cada um de nós.