Pelo padre José Júlio Rocha

A Sara é uma amiga de longa data que vive fora da ilha Terceira. Foi líder de um grupo de jovens dos anos noventa do século passado, em Santa Luzia de Angra, um grupo de jovens que guardarei sempre no coração.

Entretanto a Sara foi estudar para São Miguel, mas, todas as vezes que vinha cá de férias, arranjávamos um tempinho para almoçar.

Num dia de Setembro de 2001 combinámos almoçar num restaurante de Angra. A sala estava praticamente vazia. No fim do almoço, dirigi-me ao balcão para acertar contas e os meus olhos esbarraram com um ecrã de televisão aceso mesmo à minha frente. Fiquei petrificado, aturdido, completamente aparvalhado e atónito diante do cenário que passava no televisor: a primeira das Torres Gémeas cedia ao peso do incêndio e desmoronava-se num estrondo lento e pavoroso de destruição e morte. Era o 11 de Setembro.

Regressei a casa e nunca mais tirei os olhos da televisão. Pensei, naquele dia, que tínhamos chegado ao fim de uma era, com aquele que seria, daí por diante, o arquétipo, a antologia do terrorismo mais execrável. A América tinha sido atingida no coração e, com ela, o resto do mundo ocidental. Lembro-me de um jornalista dizer que não fora só Manhattan a ser atingida, nem só os Estados Unidos, nem só o mundo ocidental: esse ataque terrorista atingira as nossas casas, as nossas famílias, tudo o que era nosso.

Por mais que desconfiemos ou desdenhemos de certas políticas internacionais dos Estados Unidos, é indiscutível que aquele país é o garante de um mundo que vive a democracia e a liberdade como os seus lemas, e aos Estados Unidos devemos a libertação de duas guerras devastadoras e a proteção durante uma longa e penosa Guerra Fria. Atingir os Estados Unidos e a sua democracia é atingir-nos a nós todos.

Não foi com espanto, mas foi com nojo e medo que, quase vinte anos depois, assisti, de quarta para quinta-feira, à invasão da Colina do Capitólio por populares sequazes de Trump, naquele que foi um dos mais violentos ataques à democracia americana, vinda do seu próprio interior, ou, mais crasso ainda, perpetrada e inspirada pelo próprio presidente da mais emblemática democracia do mundo. Sabendo que, no Capitólio, o Senado e a Câmara dos Representantes, raramente juntos, se reuniam para deliberar uma eleição que já estava decidida; sabendo que, a dois mil metros dali, o presidente Trump reunia dezenas de milhares de apoiantes e lhes derramava ódio e mentiras e recebia aplausos e urros; sabendo tudo isto, quem é que não previa o que vinha a seguir?

Tenho um amigo que já entrou várias vezes no Capitólio. Diz-me que é um dos lugares mais seguros do mundo. Entrar ali é um ritual de perguntas, guardas, revisões, máquinas, apalpações quase insuportável. Como é que, naquele dia, com as duas Câmaras reunidas e com dezenas de milhares de manifestantes furiosos nas redondezas, havia meia dúzia de seguranças a vigiar o capitólio, para mim é um mistério maior do que os ovnis. O resultado foi uma invasão, com os congressistas a fugirem, a esconderem-se, o templo da democracia a ser devastado, bombas incendiárias e armas encontradas em vários lugares, quatro mortos e dezenas de polícias feridos e o mundo inteiro a assistir a um espetáculo macabro e vergonhoso, indigno até de uma república das bananas, risível e ridículo, não fosse a gravidade do sucedido.

Como é que mais de setenta milhões de americanos votaram, há apenas dois meses, em Trump é coisa que me ultrapassa. Até porque tenho muitos amigos, sólidos de moral, inteligentes e de boa vontade, que votaram nele e o apoiaram com sinceridade. As razões já foram dissecadas ao microscópio, mas, mesmo assim, espanto-me. E uma das razões está na chamada “bolha cognitiva”, que as redes sociais e os media comuns criaram: se eu apoio uma fação só vejo os canais que me interessam, a minha página do twitter ou facebook só me vai dar aquilo que eu quero receber. É como no futebol: o penálti a meu favor é sempre penálti, o penálti contra o meu clube nunca é penálti. A América dividiu-se como nunca desde a Guerra Civil do século XIX. As quase 20 mil mentiras de Trump foram engolidas, ou, no mínimo, toleradas, perante a ameaça brutal e comunista que, segundo o presidente, os democratas apresentavam: seria uma América do terceiro mundo, dominada pela China, invadida pelos perigosíssimos refugiados, os empregos destruídos, a violência nas ruas, mesquitas em vez de igrejas, o fim da “american way of life”. Um cenário apocalíptico de medo e ódio empolado pelo presidente americano, que resultou naquilo que quase todos previam.

Trump continua a vociferar contra a fraude eleitoral de que foi vítima, fraude que não se viu em lugar nenhum, fraude de que não há provas nenhumas à exceção de umas dúzias de queixas pontuais, coisa que acontece, inexoravelmente, em todos os atos eleitorais. Mas aqueles que invadiram o Capitólio, a somar a outras dezenas de milhões de apoiantes de Trump, estão mais que convencidos de que foram vítimas da maior fraude eleitoral da história dos EUA. Dá para acreditar? Dá. Cada um acredita naquilo que quer.

Se acho que Trump é pior do que Maduro, Xi Jinping, Kim Jong-Un, Putin, Bolsonaro e outros quejandos? Não, não acho. Mas nenhum deles está ao leme de um país que eu amo e que é o garante da democracia e da liberdade em que fundamos a nossa civilização, apesar de tudo.

Ainda me falta muito tempo para entender como é que a retórica de Hitler, inflamada de ódio, agressividade, poder e racismo, conseguiu conquistar, no fim dos anos trinta, os corações de 80% dos habitantes do país mais civilizado do mundo naquela altura, para quem a Noite de Cristal, onde morreram centenas de judeus, foram destruídos os seus negócios e casas, incendiadas as suas sinagogas, não passou de um ato quase banal de justiça.

Também foi banal a invasão do Capitólio? Se assim é, os tempos são mesmo perigosos.