O Pe Emanuel Valadão regressa à Diocese 10 anos depois

Aos 46 anos, com 22 de sacerdócio, dez deles fora da Diocese de Angra, o sacerdote terceirense regressa à ilha para um novo desafio: servir com mais dois colegas quatro comunidades da zona pastoral do Ramo Grande. Nesta entrevista fala das mudanças que encontrou na região- “que não foram muitas”-; do desafio que vai ser esta experiência in solidum – “que exigirá tolerância” de ambas as partes-; dos problemas sociais e laborais das comunidades onde está – “que são cada vez maiores e exigem uma maior articulação das políticas sociais”-; das mudanças na igreja universal, implementadas pelo Papa Francisco- “um dom doado à humanidade”-; e do momento que a Diocese de Angra atravessa. Num registo mais pessoal, quando se pregunta o que lhe tira o sono é peremptório a falar na primeira pessoa: “as minhas resistências ao Evangelho”.

 

 

Sítio Igreja Açores- Está há 10 anos fora da região. Como é que foi o regresso?

Pe Emanuel Valadão- Após dez anos de trabalho fora da diocese, estando essencialmente a trabalhar com leigos de dois Movimentos da Ação Católica (Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças e Movimento de Trabalhadores Cristãos), sem dúvida que vivi experiências marcantes com leigos, jovens e menos jovens, destes Movimentos.

Em primeiro lugar pelo seu testemunho cristão, que toca realidades eclesiais periféricas, como sejam em bairro sociais onde a presença cristã é muito ténue. Outro testemunho, é a consciência social cristã com que está no meio do trabalho ou nas associações da sua comunidade, onde testemunham aí o seu compromisso cristão. Um outro testemunho, é a necessidade que sentem de formação, quer da Palavra de Deus quer do Ensino Social, quer ainda da própria experiência de vida em processo de Revisão de Vida.

 

Sítio Igreja Açores- Que experiências traz na bagagem que gostaria de ver implementadas aqui?

Pe Emanuel Valadão- Nesta nova etapa de trabalho na diocese é necessário, num primeiro momento perceber os processos de caminhada das comunidades onde estou a trabalhar, também com mais dois colegas padres, o padre Marcos e o padre Cipriano.

Sem dúvida que sempre que for possível criar dinâmicas que coloquem a Palavra de Deus no centro da vida das comunidades, como Palavra que ilumina e ajuda a discernir a vida, tantas vezes feita de provações, é algo a avançar. Outra tarefa que desafia é, igualmente, o modo como assumimos o nosso papel social, como cristãos, no meio das realidades existentes.

 

Sítio Igreja Açores- O seu regresso acontece numa altura particularmente difícil, sobretudo nesta comunidade, que enfrenta grandes problemas e desafios sociais, laborais e até financeiros. Começou no dia 11 de setembro o processo de despedimentos nas Lajes. Que impacto é que isto vai ter nas famílias e no equilíbrio do tecido social?

Pe Emanuel Valadão- A situação dos despedimentos da Base das Lages e de tudo o que gira à sua volta, inclusive no comércio local, vem agravar a situação já sentida de desemprego nesta zona do Ramo Grande, na região e no país em geral. Cada vez que se fala sobre a vida das pessoas, são cada vez mais as que falam do problema da falta de emprego.

O trabalho não é somente uma questão monetária, para o sustento digno de quem o executa, é também um meio de criar laços sociais e familiares que permitam viver com estabilidade e participar na construção de algo mais.

 

Sítio Igreja Açores-O senhor é um sacerdote do Prado, uma Associação que tem uma orientação muito interventiva do ponto de vista social. Como sente que deve ser o seu papel junto destas pessoas?

Pe Emanuel Valadão- O momento presente exige que todos se envolvam, para se procurar em conjunto saídas que promovam iniciativas locais de desenvolvimento. Daquilo que vou vendo e sentindo da nossa situação social, diria que as políticas sociais cada vez mais precisam de ser articuladas nas comunidades.

 

Sítio Igreja Açores- Como é que se explica o evangelho a quem não tem pão para colocar na mesa, para dar aos filhos? É porque é a base das lajes, mas também a lavoura, o turismo…a Terceira a ficar para trás…e o desespero a tomar conta das pessoas. Como se apascentam estas almas?

Pe Emanuel Valadão– As comunidades cristãs não podem passar ao lado do que lhes fere. E o desemprego fere a vida de uma comunidade, das famílias. Não podemos ficar indiferentes a isso, mesmo que o sentido de solidariedade permaneça vivo nas nossas comunidades. A tarefa de cuidar do próximo é uma exigência da fé.

 

Sítio Igreja Açores- Que diferenças encontrou na maneira de estar e de viver a fé nestas ilhas neste regresso, porque numa década muita coisa mudou?…

Pe Emanuel Valadão- A nível da vivência e participação dos cristãos, as diferenças não são assim tantas no decorrer destes últimos dez anos.

 

Sítio Igreja Açores- Os Açores continuam a ser, no entanto, a região do país a evidenciar uma maior prática religiosa. Ainda assim os padres queixam-se de que as igrejas estão vazias. Sente também isso, que há menos católicos ou pelo contrário há outras expressões e formas de fé?

Pe Emanuel Valadão- O compromisso cristão não se mede pela quantidade, pela estatística. A nossa preocupação é se estamos ou não a criar comunidades de discípulos, isto é, de gente que encontra na comunidade um instrumento para fazer a descoberta de Jesus como referência para a vida. As expressões de fé são cada vez mais diversificadas, mas para que haja essas expressões é preciso conhecer e fazer a experiência pessoal do Cristo crucificado e ressuscitado, presente na vida do mundo.

 

Sítio Igreja Açores- Tem a experiência do continente, de França… o que é que motivou esta mudança que ditou, de certa forma, um afastamento em relação à igreja? Falta de abertura, de capacidade de diálogo para entender os tempos?

Pe Emanuel Valadão- Existem algumas situações que contribuem para o afastamento da vivência baptismal em relação à participação na comunidade. Em primeiro lugar, existe dificuldade em acolher as situações de fractura que acontecem na vida das pessoas, que geram grande sofrimento. É uma exigência evangélica cuidarmos do nosso próximo. Uma outra, deve-se à forma como damos razões da nossa esperança, como testemunhamos com a vida a fé que professamos. Ainda uma outra situação, a dificuldade em levar para a reflexão da comunidade a vida das pessoas, principalmente daqueles que têm fome de pão, de dignidade e de Deus.

 

Sítio Igreja Açores-Vivemos tempos de mudança na Igreja… na Universal e na nossa em particular. Comecemos pelo Vaticano. Que análise faz deste Pontificado?

Pe Emanuel Valadão- O papa Francisco é um dom de Deus dado à humanidade. Está para além das fronteiras eclesiais. É um homem que não tem medo de se deixar inspirar pelo Espírito Santo. E, quando isso acontece há sempre novidade, o Deus surpreendente revela-se. E isto é de uma evidência tão grande que ninguém fica indiferente. Mesmo aqueles que estando na Igreja e não ousam o Evangelho reagem criando resistências a este tempo favorável. Mas muitos são os que são tocados pelas sementes do Verbo, que frutificam na vida do papa Francisco.

 

Sítio Igreja Açores- Este é um Papa que recoloca a igreja a bater-se por causs, mais do que por dogmas; pelo acolhimento mais do que pela censura. É uma lufada de ar fresco que nos permite reviver uma igreja de Jesus Cristo, no verdadeiro sentido ou pelo contrário corremos o risco de ser só uma questão de estilo e quando terminar o seu pontificado ficar tudo na mesma?

Pe Emanuel Valadão- O nosso risco é de sermos espectadores desta transformação, sem nos envolvermos e participarmos da mesma. É tempo de soltar as amarras que nos prendem ao cais de seguranças efémeras e lançarmo-nos ao largo, para aí experimentarmos a imprevisibilidade de Deus.

 

Sítio Igreja Açores- Também na diocese vivemos momentos auspiciosos. Ainda sábado passado o Senhor Bispo dizia que o próximo ano pastoral deve ser entendido como um ano de graça na nossa diocese: jubileu da misericórdia: visita da imagem peregrina; a chegada de um bispo coadjutor… chega precisamente num momento de mudança. Como é que o encara?

Pe Emanuel Valadão- As mudanças não acontecem por decreto, nem de um dia para o outro. Quer na vida pessoal quer, com maior razão, num percurso em Igreja existem processos de discernimento e amadurecimento para se ver decisões e mudanças. Todavia, há etapas que poderão marcar essa caminhada.

 

O Jubileu da Misericórdia poderá ser um tempo favorável para se valorizar experiências já vivenciadas pelo povo de Deus, partir da realidade do nosso povo que nos fala da misericórdia de Deus: das palavras, dos gestos, das formas de reconciliação. Há uma grande diversidade da manifestação da misericórdia de Deus. Penso que este ano, para além dos aprofundamentos necessários sobre a misericórdia de Deus, poderia ser um tempo de acolhimento, de estarmos atentos ao modo como acontece a misericórdia, mas igualmente exercitá-la na nossa pastoral.

 

Quanto à visita da imagem peregrina, é sempre um momento forte de expressão da devoção do nosso povo. Neste momento que vivemos, socialmente conturbado, poderá ajudar a alimentar o espírito de oração, da esperança. Tomara que nos impelisse para um maior sentido do outro, da justiça.

 

A vinda próxima de um novo bispo para a diocese trará, como qualquer mudança, expectativas, inquietações, sonhos. A nossa diocese é marcada por particularidades que condicionam em muito a pastoral. Mas esta é a realidade que somos e é aqui que Deus nos envia a construir o seu Reino, padres e leigos.

 

Sítio Igreja Açores- Ser padre é um trabalho solitário… Como é que encara esta experiência in solidum que vai ter com os padres Cipriano, seu companheiro de Prado e o Pe Marcos Miranda, mais jovem, que tem uma experiência em São Jorge?

 

Pe Emanuel Valadão- Trabalhar em equipa sacerdotal junto de quatro comunidades requer muita humildade e fraternidade. Mas acredito que esta experiência transporta consigo uma grande riqueza, para nós padres e para as comunidades que estamos a servir: Santa Rita, Santa Luzia, Lages e Vila Nova.

Cada um de nós vem de um sítio diferente. Nenhum de nós estava na Terceira.

Para mim a fraternidade sacerdotal e o espírito de equipa sacerdotal tem sido reforçado na minha vida pela minha ligação à Associação dos padres do Prado, espiritualidade do padre diocesano, da qual faz parte também o padre Cipriano.

Qualquer um de nós que neste momento constituímos esta equipa sacerdotal, eu, o padre Marcos e o padre Cipriano, aceitou o desafio proposto pelo nosso bispo. Estamos a iniciar o trabalho e a adaptarmo-nos a este novo ritmo de trabalho. Está a ser igualmente para as quatro comunidades um desafio grande e por isso existem ainda algumas dificuldades em perceber esta nova etapa. Por isso, é um caminho que exige de parte a parte paciência, tolerância e coração disponível para nos acolhermos uns aos outros, como comunidade de discípulos de Jesus.

 

Sítio Igreja Açores- Lembra-se de quando decidiu ser padre?

Pe Emanuel Valadão- Lembro-me do início da aventura do querer ser padre, mas sem fazer muito a ideia do que seria. O mais importante é que sentia uma atracção e isso foi o suficiente para depois ir descobrindo e decidir-me por ser padre.

 

Sítio Igreja Açores- Tem um irmão mais velho que foi sacerdote. Como é que os vossos pais reagiram a isso? Dois filhos de uma assentada para os outros

Pe Emanuel Valadão- A minha família sempre foi marcante na minha vida, aliás de todos os meus irmãos e irmãs. A questão religiosa, da fé, da Igreja foi sempre muito testemunhada lá em casa. Tenho consciência que o testemunho, principalmente de minha mãe, ajudou a abrir na minha vida uma estrada para Deus percorrer. Por isso, não foi difícil perceber que dois filhos tivessem seguido pela vida sacerdotal. Mas a questão da doação aos outros não passou só por nós dois, os outros nossos irmãos também têm essa característica. Não é uma coisa herdada mas foi bastante vivenciada em família.

 

 

Sítio Igreja Açores- Como é que ocupa os seus tempos livres, que presumo não devem ser muitos?

Pe Emanuel Valadão- Neste momento os tempos livres são mesmo muito poucos. Resumem-se a pequenos passeios e convívio com a equipa, encontro com colegas, partilhas. Gostaria de ter tempo para o desporto, vamos lá ver.

 

 

 

Sítio Igreja Açores-O que é que lhe tira o sono?

Pe Emanuel Valadão- O que me tira o sono são as minhas resistências ao Evangelho.