Pelo padre José Júlio Rocha

Aos 52 anos já não vou para novo. E isto de ir envelhecendo não traz só dores, achaques ou entorpecimentos, mas também boas circunstâncias, tais como uma certa paz, aquela libertação dos ímpetos juvenis, o adormecimento do sangue na guelra, a pacificação das vontades e um certo gozar o prazer de viver, que levou alguém a afirmar, com propriedade, que a vida começa aos cinquenta.

Uma das faculdades que mais se transforma é a memória, propriedade estranha, com os circuitos cerebrais a alterarem-se, menos flexíveis e mais seletivos. Esquecemos o prato do jantar de ontem, mas recordamos ao pormenor até alguns cheiros da nossa infância. Talvez seja por isso que quase todos os escritores, idade entrada, escrevem as suas “memórias”, porque a mente ilumina o passado, romanceia-o, disponibiliza-o para o presente e é aí que recordar é viver.

Sempre tive, desde a infância, uma paixão por Francisco de Assis. Admirava a sua singular rebeldia, a sua pobreza e desapego, a forma como via Deus na natureza e nos animais. Sempre gostei de rezar nos montes, nas florestas, nos prados ou junto ao mar. Os nossos Açores são quase sacrários para admirar o Criador pela beleza da criação.

Andava eu pelos vinte anos, talvez vinte e um, talvez dezanove, que a memória, por mais precisa que seja, nem sempre acerta. Já era “teólogo” no seminário, título nobiliárquico na sociedade de classes daquela casa, que correspondia aos últimos quatro anos do percurso e me dava uma aura de superioridade sobre os “filósofos” e um quê de paternalismo sobre os ínfimos que ainda não tinham terminado o 12º ano.

O admirável padre António da Luz, a quem alcunhávamos de “Titi”, porque teve um sobrinho seminarista que o chamava assim, pregou-nos um retiro. E a primeira parte desse bonito dia começou com a exibição de um filme sobre São Francisco: “Irmão Sol, Irmã Lua”, chamava-se. Bastante romantizado, diga-se de passagem, com um Francisco suficientemente estilizado, uma bela e romântica Clara de Assis e uma aventura de fé e juventude a postos para nos embevecer o coração e a alma. Datado de 1972, o filme contava a história do rico e burguês Francisco, filho de Pedro Bernardone, amante de histórias cavaleirescas e de farras com amigos, frágil e simpático, que, ao ver um pobre leproso, sente que não é dando esmola que se é santo. Deixa tudo, despe-se de tudo; reconstrói, com os primeiros amigos, a igrejinha de São Damião; tem uma paixão platónica pela bela e loura Clara, que se transforma em oferecimento sacrificial a Deus; entra, descalço, nos palácios sumptuosos do papa para o avisar de que, escrava das riquezas e do poder, a Igreja vai ruir; dialoga com um sultão muçulmano em pleno tempo das Cruzadas; com apenas um saco como roupa e sem nada de seu, percorre terras e montes anunciando a alegria da liberdade com Jesus; e tem uma frase declamada aos seus seguidores que ainda me comove: “Look at the flowers in the fields: thei don’t work; but not even Salomon, in all his greatness, dressed like them.”

Apaixonados por esse dia, com o coração em brasa, eu e mais três colegas decidimos encetar um caminho de maior conversão, à maneira de São Francisco. Passámos a usar sandálias nessa primavera solar, porque era primavera. Sempre simples calças de ganga. Não guardar ressentimento fosse do que fosse, estudar sem queixas e respeitar os professores e os colegas. Não nos preocuparmos com o amanhã. Viver a vida a plenos pulmões e, sobretudo, dentro das possibilidades que o seminário concedia, sermos uma espécie de nómadas, livres da escravidão dos bens materiais… livres de tudo, livres.

Nos intervalos saíamos os quatro, rumo ao Monte Brasil ou aos matos que se estendem pela Terra Chã acima, admirando a beleza das flores do campo, do sol que penetrava por entre as folhas das árvores, do cheiro fresco da terra. Cantávamos cânticos e hinos: uns, bem cristãos, outros, bem humanos, como “uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar… como ela, somos livres…”

Era assim que entendíamos o estilo de vida de Jesus e, confesso, talvez nunca me tenha sentido tão cristão como nesse tempo em que tudo fazia sentido: muito amor e um violão às costas, não pertencer a nada e de nada ter medo, rezar e cantar o fulgor da nossa juventude, imaginar que, se Jesus voltasse hoje à Terra, era assim que Ele seria, sem um lugar onde reclinar a cabeça, um coração cheio de ideais e pronto a transformar o mundo num lugar de paz e fraternidade universal. Fui feliz.

Mas interpuseram-se, entretanto, as férias de verão e cada um de nós foi para seu lado. Enquanto o sol aquecia o mundo, o nosso ímpeto, com o afastamento e a lonjura, foi arrefecendo. Os ideais e os sonhos da juventude costumam ser fugazes como as flores silvestres, belas mas breves. E, no entanto, como gostaria eu de eternizar aqueles breves dois meses em que o sonho comandava a vida! Mas, se aos vinte anos se é incendiário, aos quarenta é-se bombeiro. É uma espécie de lei da vida a que não me conformo. Vêm as preocupações deste mundo, harmonizamos acrobaticamente a fé e o amor com o comodismo. Desistimos, com o passar dos anos e o choque com a realidade, de um sonho que agora nos parece uma utopia irrealizável.

Pois é. A realidade tem o peso inexorável da razão. E, no entanto, tenho a certeza de que aquele tempo foi muito mais verdadeiro.