Pelo padre Nuno Pacheco de Sousa

Um rapazinho com uma mão cheia de anos, na sequência dos seus dias primários; olhos grados, onde em cada qual é possível o mundo se espelhar; dias ali pelos avançados 80, ou pelos frescos da década de 90; um avô de parcas palavras, sábio conviva do essencial da vida, vizinho do mar, onde deu às pedras do seu lugar um nome, e luta com os dias gastos usando a espera e a esperança, com uma paciência e engenho ímpares, propriedade de quem já viveu o suficiente para saber que a maestria de um pescador é a sua paciência porque o peixe morde sempre a isca, este quase nada de alimento que constrói fantasia, curiosidade incomparável em torno de si.

O domingo deste rapaz tinha uma geografia própria, como talvez o domingo de cada um de nós, com rituais, e convívio. Acordar mais tarde, provar desta liberdade de quase gerir o seu tempo, vestir uma roupa nova e os sapatos destinados ao domingo, talvez uns dois números acima, para ir servindo durante algum tempo; catequese e missa, no entretanto brinca-se com o sagrado, leva-se um puxão de orelhas, rir abafado, sossega, e lá vem mais um dia cheio de novidades. Já é quase hora de almoço quando se sai da Igreja depois da missa, mas antes há um outro ritual, uma repetição tão antiga quanto renovada: o avô, fumando a sua cigarrilha no canto da boca e “meiozinho” aviado na tasca do largo, está no calhau, de pé no seu pedregulho de residência quando se põe a pescar como quem chama o universo para um conjunto de atos revisitados com a ancestralidade que a faina traz. Pedra a pedra vem a criança a saltitar com aquela energia própria de quem desmede o perigo, o avô feliz por saber que tudo aquilo segue-o a ele, finge não ser nada consigo, fazendo o puto desesperar, sentar-se a seu lado, pular novamente, colocar-se de cócoras lado a lado com o ancião e sentar-se enrolado na sua pergunta persistente: «Avô, onde está? Trouxeste a minha cana?». Mas o avô, como já disse, ensimesmado, finge não ser nada com ele. Quando Deus queria, bela expressão esta, o avô começava a remexer no contíguo saco, fingia procurar sem encontrar, fingia atender a uma pergunta que parecia não ter escutado. Lá vem o engodo, o anzol, a cana vermelha do tamanho do rapazinho e uma alegria séria por poder partilhar a possibilidade do mar, da pesca, do tempo ganho em espera, esperança e contemplação perante o oceano, o perfilar lado a lado com o mestre avô.

Estas nossas ilhas são mais mar do que de terra, onde histórias destas repetem-se vezes sem conta nas nossas vidas domésticas. Para cada um, ela é incomparável, totalmente genuína, colocando-se na narração o sabor do amor experimentado. Conto esta história exatamente na Semana Santa, onde a leitura da Paixão de Cristo e a espera emudecida entre a tarde de sexta-feira e a manhã de domingo haverá de nos fazer novamente mossa, confusão, deixar-nos atordoados pelo amor, pelo silêncio, pela paixão e esperança com que Jesus se entrega. A Páscoa é possível!

Santa Páscoa para ti!

*Este artigo foi publicado no jornal A Crença