Por Carmo Rodeia

O  Papa Francisco, depois do assassinato brutal do padre francês, na viagem de regresso a Roma após ter participado nas Jornadas Mundiais da Juventude, na Polónia,  considerou não ser justo identificar o Islão com a violência, e disse que o terrorismo é da autoria de “grupos fundamentalistas”, que são minorias. E até foi um pouco mais longe, lembrando que em quase todas as religiões há sempre um pequeno grupo fundamentalista. “Também nós os temos” disse o sucessor de Pedro com a maior naturalidade, como de resto é sua característica, o que ainda torna a declaração mais importante e genuína.

“Todos os dias, quando abro os jornais, vejo violência em Itália, alguém que mata a namorada, outro que mata a sogra. E são católicos batizados. Se falo de violência islâmica, também tenho de falar da violência cristã“, sublinhou.

O responsável da Igreja Católica colocou a questão como deve ser colocada: o terrorismo não é uma questão religiosa porque nenhum Deus o autoriza. A experiência, aliás,  demonstra que a violência, os conflitos e o terrorismo se alimentam com o medo, a desconfiança e o desespero que nascem da pobreza e da frustração e não da fé, pelo menos de uma fé esclarecida.

Basta vermos os níveis de criminalidade em países onde quer a pobreza quer a frustração são maiores para percebermos que países mais pobres e mais desiguais são os que registam maior índice de criminalidade e de terrorismo. E não precisamos de ir para o outro lado do mundo, para o México, Venezuela, Brasil, Nigéria, Afeganistão ou Libia para chegarmos a essa conclusão. Podemos ficar na Europa e vemos que o diagnóstico bate certo.

Ou já esquecemos o terrorismo alemão (Baader-Meinhof) e italiano (Brigadas Vermelhas, que assassinaram o primeiro-ministro Aldo Moro) surgidos nos anos 60, anos de grande crise? E que dizer do IRA (Exército Republicano Irlandês) e dos inúmeros atentados da ETA em Espanha?

Hoje, boa parte dos militantes do chamado Estado Islâmico, incluindo os que actuam ou se preparam para actuar em países europeus, nasceu e cresceu na Europa.

Quantos entre os nossos jovens europeus é que abandonámos, sem ideais, sem trabalho e sem horizontes? Quantos deles empurrámos assim para as fileiras fundamentalistas?

“Aqueles que não são capazes de aprender com a história, estão condenados a repeti-la” – o aforismo é da autoria de um filósofo e ensaísta nascido em Espanha, em 1863, com o nome de Jorge Agustín de Santayana y Borrás.

 

No caso europeu, acresce a tudo isto um enorme falhanço das

opções políticas. Vivemos uma situação difícil mas não incompreensível.

 

Aqui impera, cada vez mais, uma cultura de repúdio dos pilares da civilização ocidental, por incapacidade e manifesta incompetência das atuais gerações de políticos europeus e suas elites, mais preocupados com as finanças do que com as pessoas enquanto os outros , que se dizem atentos às pessoas, enveredam por nacionalismos serôdios, bafientos e xenófobos.

 

Quando o outro se torna uma coisa e uma vida humana passa a ser tratada como outra coisa qualquer, é difícil encontrar soluções.

E nós não andamos longe disto…como no passado. Afinal o mal não vem só de um lado, embora ultimamente até tenha havido reincidência…