Lime Regis é uma pequena cidade do sul de Inglaterra. O seu porto, de recreio e de pesca, é protegido por um insólito molhe ondulante, isto é, com curva e contracurva.

Esta imagem gravou-se-me a partir do filme de Karel Reisz, “A Amante do tenente Francês”. Aí aparece Meryl Streep. Na ponta desse cais, fustigado pelo vento e pelas ondas, mergulhado numa neblina escura, lá está ela: silhueta de mulher que, capote sobre si, erguida a cabeça, olha o infinito e espera. O que é a ausência? Que peso tem ela na nossa história pessoal? Não será a ausência – e a vontade de a superar – um dos motores da vida? O que seria da fé se não fosse a ausência? E a esperança, a doce esperança, que, no cantar açoriano, “me anima nesta ausência”?

Em Novembro de 1994, depois de sessenta anos de cumplicidade, morreu minha avó Olívia, deixando o José com oitenta anos e já ceguinho. Várias vezes me confidenciou tudo o que lhe cabia na alma: o não conseguir passar cinco minutos sem pensar nela; o só esperar que Nosso Senhor o levasse para junto dela. Aconteceu sete anos depois. Nunca deixo de me comover com essa espera, esses eternos sete anos a forjar, minuto a minuto, o ponto-cruz da paciência, qual Jacob à espera de Raquel. É na ausência que o homem se aproxima do Infinito. Há imensas histórias de japoneses que ainda estão à espera de familiares ou amigos desaparecidos. Mães que ainda esperam regressos de filhos. Um soldado japonês da 2ª Guerra mundial lutou pelo seu imperador até 1974, na selva das Filipinas. Santa Mónica rezou pela conversão de Agostinho durante 30 anos… Feliz o homem que, no século que venceu a ausência, ainda se atreve a olhar o céu e esperar a presença do Infinito, que o Amor é bem mais forte do que a morte.

As novas tecnologias da informação colocaram a ausência e a saudade no banco de suplentes. E a fé a fazer longos exercícios de aquecimento. Somos cada vez mais os que não sabemos esperar, os que não suportamos a saudade, os que não acreditamos na fé… um vazio sem saudades nem esperança parece uma cidade em movimento, carros, aviões, pessoas com pressa, edifícios muito complexos, centros comerciais e estádios com capacidade para uma ausência de 50 ou 60 mil pessoas. A aparência é prima, filha de irmãos, da pressa: duas formas de fugir, não se sabe de onde nem para onde. Apenas fugir. Fugir como fim em si mesmo, fugir por fugir, porque, enquanto se foge, não se está… Feliz quem ainda pára, espera ou ergue os olhos, se entrega, saboreia uma ausência que permanece, entrega a alma como manto ao sol. Só o nome de Deus é que não passa.

Visitei Pompeia, pelo fim do inverno de 1993. Cidade fantasma, ficou na história depois da erupção do Vesúvio no ano 79 depois de Cristo. Uma nuvem piroclástica, daquelas que avançam a 200 km por hora e a 500 graus de temperatura, calcinou a vida e preservou a pedra. Sobraram os famosos “calchi”, formas humanas ou animais preservadas no último gesto do horror. A nuvem atingiu-os, matando-os de imediato. O brasido da nuvem sugou a água dos corpos, criando uma camada de cimento à volta deles e esvaziando o espaço deixado por esses corpos. Resultado: criou-se uma forma à volta dos corpos e um vazio por dentro da forma. A partir do século XIX, um processo de injecção de gesso deu corpo a essas formas vazias e é isso que vemos hoje em Pompeia.

De entre as muitas figuras, há uma de uma mãe que, no último gesto, se atira para cobrir o filho ainda bebé. O mais rápido gesto da vida dessa mãe dura há dois mil anos. Outro é o de um homem e uma mulher que se chegam um para o outro, num gesto de amor e mútua protecção. Durante dois mil anos ficou o vazio deles, desses corpos, rodeado de cinzas por todos os lados. Passaram céus e terras, estrelas, nuvens e cometas. Passaram civilizações inteiras. A sua forma, sem conteúdo, lá ficou. Hoje, olhamos para aquilo e vemos amor. Não há corpos, não há um osso, uma célula, um grão de cinza que tenha pertencido àqueles corpos. Eles, no entanto estão lá. Ou melhor, a ausência deles está tão ali que ninguém se atreve a negar a sua presença…

Primeira provocação: é a ausência que faz com que o amor seja eterno?

Segunda: espera…

Pe. Júlio Rocha