Frei Fernando Ventura está nos Açores a preparar a vinda do espectáculo MAM´ÁFRICA da associação Alma Mater Artis

É um “apaixonado” por São Miguel e diz que está de regresso à ilha para “pagar uma dívida” pela generosidade dos açorianos que contribuíram para  a criação de um Banco de Leite em São Tomé e Príncipe.

Entre conferências sobre a “Bíblia e a vida de Missão” e contactos institucionais para tornar possível a vinda de cerca de 100 crianças que formam o espetáculo Mam´África, que se realizará no dia 25 de julho, no Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada, o frade capuchinho aceitou falar com o Sítio Igreja Açores sobre a menina dos seus olhos- a associação Alma Mater Artis- que vai ter um espaço novo, no Porto,  que será “uma fábrica de talentos”; sobre o sentido de solidariedade que a associação transporta e a linguagem que comunica convocando toda a gente para que “a gente possa ser pessoa”. Aproveitando a Quaresma, tempo de conversão- a “começar pela própria linguagem”- fala da igreja – “que deveria ouvir-se mais”-, da resposta das bases no apoio social e das dificuldades que podem surgir- “um cisma”-  caso o Papa Francisco  “não tenha tempo” para fazer “as reformas que se impõem para que “a lógica do poder dê lugar à lógica do serviço” e se passe “da religião à fé”.

 

Sítio Igreja Açores- O que é que o traz aos Açores?

Frei Fernando Ventura- Venho pagar uma dívida de gratidão para com São Miguel. Eu e o Bispo de São Tomé somos banqueiros porque formámos e gerimos um banco de leite. Há quatro anos, quando estive em São Tomé, justamente no mês de fevereiro, para fazer cursos bíblicos ele confidenciou-me a dificuldade que tinha para encontrar leite para o orfanato gerido pela Cáritas, a única instituição para acolher crianças órfãs no país. Na altura, tinha leite apenas para três semanas e estava em pânico. Foi então que surgiu a ideia do Banco de Leite.

 

Sítio Igreja Açores- Mas como é que a ideia se concretizou?

Frei Fernando Ventura- Como tenho acesso aos media, foi por aí que fizemos as coisas. Primeiro na TVI, num programa da Fátima Lopes. O certo é que no final de fevereiro já tínhamos leite até dezembro. As empresas de lacticínios dos Açores foram decisivas: a Bell e a Insulac e, desde então têm sido nossos parceiros.

 

Sítio Igreja Açores- Agora tem outros parceiros…

Frei Fernando Ventura- Sim, a Associação de Municipios e outras instituições. De resto, nós dizemos que o Banco de Leite é filho dos Açores. E agora já não é só leite. Estamos a trabalhar com a escola do orfanato; estamos a montar uma escola com tudo o que ela deve ter; temos uma parceria com o Inatel para desenvolvermos um projeto de turismo sustentável e natural lá em São Tomés, nos municípios onde a Congregação tem casas. Até para disputar lugar com a hotelaria tradicional. Nós queremos criar um lugar na oferta turística; queremos levar as pessoas a visitar São Tomé, que é um dos países mais seguros do mundo. Tem praias fabulosas; a população é muito acolhedora e tem tudo para se fazer umas férias de sonho.

 

Sítio Igreja Açores- Onde é que estão?

Frei Fernando Ventura– Em vários Sítios. Desde logo, na capital, depois, em Santana, nas Neves…

 

Sítio Igreja Açores- Como é que este projeto se liga ao da associação Alma Mater Artis?

Frei Fernando ventura- São projetos solidários. Tudo começou na Maia, num espetáculo de beneficência a favor de São Tomé, do Fernando Pereira, com apresentação de Júlio Isidro, dois amigos meus. Atuaram vários jovens ligados à Escola Secundária de Águas Santas, no concelho da Maia. No final do espetáculo apercebi-me do talento e do desempenho destes jovens e no dia seguinte fui atrás deles à escola. E assim nasceu o projeto da Alma Mater Artis, no primeiro dia da primavera do ano passado, com a ajuda dos pais e o empenho de muita gente conseguimos levar por diante este projeto que tem como fim a educação pelas artes. Hoje temos 8 jovens a frequentar a escola de artes. Vamos abrir um  chapitô no Porto. Temos três anos para recuperar uma velha fábrica que vai ser a nossa fábrica de talentos. Atualmente ainda estamos em instalações provisórias em Águas Santas. Todos os dias os miúdos treinam horas a fio num sítio que não tem grandes condições e por isso, também, tenho grande respeito por estes miúdos.

 

Sítio Igreja Açores- Que vêm aos Açores…

Frei Fernando Ventura- Sim, estamos a preparar um espetáculo no dia 25 de julho, no Coliseu Micaelense. É a forma que temos para retribuir e agradecermos as ajudas que nos têm dado. É também uma forma de lhes mostrar São Miguel. Tenho tido uma grande recetividade de todas as entidades desde a Câmara Municipal, à Associação de Municípios da ilha de São Miguel, a SATA, a Mãe de Deus, Banif, Liberty Seguros todos têm sido muito generosos. Vamos só fazer um espetáculo porque há exigências de palco. Há momentos em que temos 80 crianças em simultâneo no palco e isso limita-nos as opções dos espaços. Mas já está tudo acertado.

 

Sítio Igreja Açores- Temos um banco de leite e uma associação a trabalhar solidariamente, com o patrocínio dos Açores, graças a um conjunto de boas vontades que tem alimentado estas ideias. É uma resposta aos problemas de hoje, sermos solidários?

Frei Fernando Ventura- A receita passa por aqui. Criar redes de relações e pedir que cada um faça tudo o que pode ou que lhe é possível. Se juntarmos esse possível a outro possível vamos certamente ampliar. Eu luto todos os dias contra aquele chavão que diz que a minha liberdade termina quando começa a do outro. Eu quero pensar que a minha liberdade se alarga com a liberdade do outro. Julgo que é nesta cumplicidade de relações e de liberdades que conseguimos construir alguma coisa a partir de baixo, dos mais pobres.

 

Sítio Igreja Açores- Tem um livro sobre isso: Somos Pobres mas somos muitos…

Frei Fernando Ventura– Foi escrito com o Joaquim Franco mas a frase não é nossa. É de Moçambique, onde vou com uma certa regularidade porque temos lá projetos. Em fevereiro, que é época de cheias, fica tudo coberto de água e quando lá cheguei, uma das vezes,  vi as pessoas nos arrozais a retirar e a replantar os pés de arroz porque a água quando é muita mata o crescimento do arroz. Isto é trabalho de escravo porque as pessoas fazem-no manualmente 10 a 12 horas por dia. Esta gente recebe apoio da Ordem Terceira Secular em Quelimane. Aliás, a Ordem Terceira lá tem mais de três mil membros e nós fomos recebidos pelo Ministro Nacional da Ordem Terceira, o Sr. Paulino. É nesta circunstância que vamos para uma estrutura muito grande que foi cedida pelos Capuchinhos à Ordem Terceira e, quando paramos o carro, vejo uma série de sete casas pequenas mas que destoavam do resto. E eu, com a mentalidade europeia, exclamei que aquilo deveria ter custado uma fortuna. Ao que ele me respondeu: sabe, nós somos pobres mas somos muitos. Ou seja esta gente percebeu qual é o sentido da solidariedade e como é que se pode dar volta à crise.

 

Sítio Igreja Açores- Não foram atropelados pelos mercados…

Frei Fernando Ventura- Não, não foram. Isto é a verdadeira aritmética de Deus, dividir para multiplicar e subtrair sem tirar nada a ninguém. Tal como no milagre da multiplicação dos peixes e dos pães. Dividir para ter mais. É aqui que está a filosofia de todo o nosso projeto que tem alguns slogans: não podemos acabar com a fome do mundo mas podemos tirar alguém do mundo da fome; estamos aqui para que toda a gente seja gente e que entre toda a gente ninguém deixe de ser pessoa. São dois slogans que estão subjacentes à nossa maneira de estar e que nos nossos espetáculos são sempre repetidos.

 

Sítio Igreja Açores- A semana passada fomos confrontados com números devastadores: um em cada europeu é pobre. Quem dava, hoje está a pedir. Corremos o risco de um certo cansaço de ser solidário?

Frei Fernando Ventura- O milagre está justamente aí. Se reparar as campanhas da Cáritas e do Banco alimentar estão a ter mais sucesso com a arrecadação de mais donativos. Este é o verdadeiro milagre da história. O aumento de pobres é um drama, mas o tecido social que ainda consegue manter-se é muito solidário e é esta solidariedade que temos de aproveitar e fazer conhecer. Deve servir para mostrar aos políticos e aos dirigentes que há uma parte da sociedade que é solidária e que se rege por valores.

 

Sítio Igreja Açores- A Igreja não deveria já ter levantado mais a sua voz, para além do trabalho de formiga que é indiscutível e sem o qual muitos mais pobres existiriam?

Frei Fernando Ventura- Sem dúvida que já deveria ter levantado muitíssimo mais a voz. Eu diria que a Igreja tem a responsabilidade de organizar as formigas. Conhece a teoria da formiga e do comboio? A formiga não pode parar o comboio mas pode chatear o maquinista… muitas formigas a picarem o maquinista fazem-no parar. A igreja, tal como todas as instituições que têm voz e capacidade de congregação de pessoas, deve funcionar como mobilizadora de consciências e de pessoas no sentido de se estabelecerem redes de relações que façam uma voz compacta despartidarizada e descomprometida com certos poderes para levantar a voz e fazer coisas. Há muita gente a ganhar publicidade à custa dos pobres. Temos muitos mais denunciadores e poucos anunciadores. Respeito muito quem denuncia; respeito menos quem denuncia e depois não age, nem anuncia. Os pobres dão de comer a muita gente que vive à custa deles. Os pobres enfeitam muitas campanhas políticas e até religiosas que não são consequentes. Eu não tenho problemas em ir para a rua manifestar-me mas, no final da jornada, eu não posso contentar-me em enrolar a bandeira no mastro e voltar a casa até que me mandem gritar outra vez. Eu quero estar no espaço do grito, mas daquele que se faz ouvir também pela ação. É esta a igreja que eu quero e com a qual me identifico. Eu diria, em síntese, que as bases estão muito organizadas; o Papa todos os dias levanta a voz nesse sentido, mas infelizmente há uma hierarquia muito calada e instalada.

 

Sítio Igreja Açores- O Papa tem sido um grito constante…mas nem sempre de forma acompanhada…

Frei Fernando ventura- Sem dúvida. As bases têm respondido brilhantemente, mas há uma hierarquia bastante calada, a contrapelo do Papa. Há uma zona cinzenta marcada pela digestão do Papa Francisco que age a partir da experiência. E essa zona cinzenta precisa ser iluminada. Eu costumo dizer, em jeito de sofrimento, que há algumas pessoas dentro da igreja que estão à espera que o Papa morra para que a Igreja volte a ser católica e há algumas azias mal digeridas que se mantém no limbo, que é essa zona cinzenta. Naturalmente que há muitas exceções e há bispos e dioceses que estão a trabalhar muitíssimo bem. Mas o silêncio dos que se calam é muito mais ensurdecedor. A Igreja tem a obrigação de anunciar mas tem também o dever e a missão de denunciar tudo o que é contra a dignidade humana e tudo o que contribui para que as pessoas sejam tidas em conta e que cada pessoa seja vista como gente. E. aqui, há muito trabalho a fazer, muita estrada a percorrer.

 

Sítio Igreja Açores- Estamos em cima dos dois anos de pontificado. Os apelos do papa Francisco, as reforma anunciadas correm o risco de não se concretizarem, justamente por oposição da tal zona cinzenta, que vai fazendo de conta, empatando?

Frei Fernando Ventura– Corremos esse risco, mas corremos um outro que eu tenho algum pudor em dizer mas que me atrevo a considerar como um cisma. Se por ventura o Papa não tiver tempo ou por motivos de saúde não conseguir concretizar todas as reformas que se impõem, numa estrutura piramidal esclerosada, porque há uma igreja que ainda não passou da lógica do poder à lógica do serviço, vai ser dificil. Se esta ideia não vingar ou não se concretizar, ou seja, se não conseguirmos reduzir estes fumos imperiais que veem o Papa mais como o sucessor do imperador Constantino do que de Pedro; se as reformas não forem concretizadas; se  a influência destas pessoas não for reduzida e o Papa que vier a seguir marcar, pela negativa, um afastamento em relação a isto, nós corremos o risco de um cisma e de ver a igreja partida em duas, com sensibilidades muito diferentes.

 

Sítio Igreja Açores-  Escusado será dizer que se identifica com este pontificado…

Frei Fernando Ventura– O Papa Francisco já mostrou que é possível fazer diferente. Já provou a força de comunicação da mensagem e a força transversal da palavra. Hoje há esta urgência de dizer aos homens e mulheres da religião que temos de passar à fé. Temos de passar da religião à fé, num momento em que, mascarado de religião temos lutas de poder que estão a fazer da mensagem religiosa uma portadora de guerra, de morte e de sangue. Este é o tempo de fazer isto e a igreja Católica tem a obrigação de ir à frente. Isto é o que o Papa Francisco nos tem dito e tem feito. Temos um Papa anticlerical e isso dá muito gozo, porque hoje somos convocados a ser anti tudo o que nos transforma em estruturas autorreferenciáveis e autorreferenciadas e nos transformam em pescadinhas de rabo na boca.

 

Sítio Igreja Açores- Vivemos um tempo de conversão. Como nos podemos aproximar de Deus?

Frei Fernando Ventura- Começando, por mudar, se calhar e desde logo, a linguagem da própria Quaresma.

 

Sítio Igreja Açores- Isso é um desafio porque muitos de nós não chegam à Páscoa…

Frei Fernando Ventura– Pior… temos a mania de certas coisas, até na linguagem da conversão, que parece que não entendemos. O tempo da Quaresma, às vezes, é um tempo de grande hipocrisia.  Nós ainda achamos que a conversão é deixarmos de ser maus e passarmos a ser bons. Passa por aí, mas a mania de tentar ser perfeito aos olhos de Deus, levada ao extremo, toca quase aquilo que é o pecado “originante”. O excesso de vontade de conversão pode levar-me a ser ainda mais pecador porque quase que desperta em mim a ideia de quere ser Deus e de eu querer chegar ao mundo de Deus. Veja o mito da maçã: se comeres a maçã sereis como deuses; eu sou Deus diante do outro e por isso o Caim teve de matar o Abel porque é o que tem tudo e o Abel é o Zé ninguém…Ou a vontade de controlar Deus que nos chega pela Tore de Babel, nesse desejo incontrolado de matar Deus para sermos Deus.

 

Sítio Igreja Açores- Como é que se ultrapassa isso?

Frei Fernando Ventura- Tenho desafiado muitos colegas para levarmos as pessoas a pegar na história ao contrário: não sou eu que me converto; é Deus que se converte a mim. Aquilo que me toca a mim é viver o amor que me foi dado, o amor primeiro de Deus. Portanto, Deus é que me acolhe, vem até mim para que eu possa sonhar com os outros, para que, em conjunto, possamos celebrar aquele que é o desafio da construção do reino.

 

Sítio Igreja Açores- A Simone Weil dizia que “Não é porque Deus nos ama que devemos amá-lo. É porque Deus nos ama que devemos amar-nos”…

Frei Fernando Ventura- É exatamente isso e essa é a conversão. O que é a Metanoia? É ir para além de mim próprio. A conversão é isso: sair de mim para chegar ao outro e juntos chegarmos mais longe, a Deus. Ainda ontem expliquei isto aos romeiros de Água de Pau. Um romeiro é isto alguém que sai do seu conforto, da sua casa, da sua família, se põe à estrada com outros, com os quais estabelece relações de fraternidade, com os quais enfrenta as dificuldades para procurar o rosto de Deus.

 

Sítio Igreja Açores- E como é que alimentamos não só o caminho mas depois os dias a seguir?

Frei Fernando Ventura- A luta é a passagem do eu ao nós…

 

Sítio Igreja Açores- Numa sociedade marcada pelo individualismo, isso é possível?

Frei Fernando Ventura- É cada vez mais difícil, mas vai-se conseguindo…não sou pessimista. O tempo é de esperança até porque estamos todos convocados a encontrar novas formas de mundo porque o que existia já não volta…. Por isso há esse desafio de passarmos do eu ao nós… somos pobres mas somos muitos.