Primeiro discurso em Atenas evoca contributo helénico para o desenvolvimento do Cristianismo e do Ocidente

O Papa disse hoje em Atenas que o mundo ocidental regista um “retrocesso da democracia”, alertando para o crescimento de populismos que procuram explorar o descontentamento das populações.

“Não se pode deixar de constatar, com preocupação, que hoje – e não só no continente europeu – se verifica um retrocesso da democracia. Esta exige a participação e o envolvimento de todos e, consequentemente, requer cansaço e paciência”, indicou, no primeiro discurso pronunciado na capital grega, onde chegou esta manhã, após uma visita ao Chipre, iniciada na quinta-feira.

Francisco alertou que a crise democrática leva ao ressurgimento do autoritarismo e dos populismos.

“Em várias sociedades, preocupadas com a segurança e anestesiadas pelo consumismo, o cansaço e o descontentamento levam a uma espécie de ceticismo democrático. Mas a participação de todos é uma exigência fundamental”, apontou.

O Papa falava no Palácio Presidencial, onde foi recebido pela chefe de Estado, Katerina Sakellaropoulou, e o primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis, perante responsáveis políticos, representantes da sociedade civil e do corpo diplomático.

“Que às seduções do autoritarismo se responda com a democracia; que à indiferença individualista se oponha a solicitude pelo outro, pelo pobre e pela criação, colunas essenciais para um humanismo renovado, de que precisam os nossos tempos e a nossa Europa”, apelou.

Francisco saudou Atenas como uma “cidade gloriosa”, local “de espiritualidade, cultura e civilização”, com particular ligação ao Cristianismo, recordando que os Evangelhos foram escritos em grego, “língua imortal”.

“Sem Atenas e sem a Grécia, a Europa e o mundo não seriam o que são; seriam menos sapientes e menos felizes”, declarou.

O Papa afirmou a necessidade da transcendência para ser “verdadeiramente humanos”, num Ocidente em que se “tende a ofuscar a necessidade do Céu”.

A intervenção evocou ainda a ligação do país com o Mediterrâneo, numa vocação de ser “ponte entre os povos”.

“Aqui nasceu a democracia. Milénios depois, o berço tornou-se uma casa, uma grande casa de povos democráticos: refiro-me à União Europeia e ao sonho de paz e fraternidade que constitui para muitos povos”, referiu o Papa.

O discurso deixou recomendações aos responsáveis políticos, criticando a “busca obsessiva de popularidade, a sede de visibilidade, a proclamação de promessas impossíveis nem na adesão a colonizações ideológicas abstratas”.

No berço da democracia, onde o homem tomou consciência de si como “animal político”, Francisco desafiou todos a participar nos grandes desafios da sociedade contemporâneo.

“Penso no clima, na pandemia, no mercado comum e, sobretudo, nas pobrezas generalizadas. São desafios que exigem uma colaboração concreta e ativa”, afirmou.

O Papa recordou as consequências trágicas de vários incêndios que atingiram a Grécia, nos últimos anos, pedindo que os acordos para travar as alterações climáticas sejam “seriamente” implementados.

A intervenção evocou as várias simbologias associadas à oliveira, da paz à solidariedade.

“Alguns exemplares de oliveira mediterrânica testemunham uma vida tão longa que antecede o aparecimento de Cristo. Seculares e duradouras, resistiram ao passar do tempo e lembram-nos a importância de conservar raízes fortes, impregnadas de memória”, realçou o pontífice.

Francisco deixou uma palavra à minoria católica (cerca de 1% da população grega) e pediu que seja reconhecido o seu contributo, ajudando a “fazer progredir este país na abertura, na inclusão e na justiça”.

“O Theós na evloghí tin Elládha [Deus abençoe a Grécia]”, concluiu.

À chegada ao aeroporto de Atenas, o Papa Francisco falava numa «terrível odisseia moderna»

O Papa criticou hoje em Atenas a falta de solidariedade da União Europeia na resposta à crise migratória, que considerou uma “terrível odisseia moderna”.

“Persiste a demora europeia: a comunidade europeia, dilacerada por egoísmos nacionalistas, em vez de ser motor de solidariedade, às vezes aparece bloqueada e descoordenada”, assinalou Francisco, no primeiro discurso da sua viagem à Grécia, no Palácio Presidencial.

Menos de duas horas depois de ter chegado à capital grega, vindo do Chipre, o Papa destacou o impacto desta crise na população.

“Este país, caraterizado pela hospitalidade, viu desembarcar nalgumas das suas ilhas um número de irmãos e irmãs migrantes superior ao dos próprios habitantes, aumentando assim as contrariedades que ainda padecem das fadigas da crise económica”, ilustrou.

Francisco assinalou que a questão migratória abriu brechas “entre o sul e o norte” da Europa, como acontecia anteriormente, por motivos ideológicos, entre leste e ocidente.

Desejo apelar mais uma vez a uma visão de conjunto, comunitária, face à questão migratória, e encorajar a ter atenção aos mais necessitados para que, segundo as possibilidades de cada um dos países, sejam acolhidos, protegidos, promovidos e integrados no pleno respeito dos seus direitos humanos e da sua dignidade”.

O Papa defendeu uma “convivência pacífica”, com aqueles que são obrigados a fugir da sua terra, à procura “de casa e esperança”.

“São os protagonistas duma terrível odisseia moderna”, insistiu.

A intervenção recordou o impacto da pandemia, que lembrou a pertença comum à “mesma frágil humanidade”.

Falando da Grécia como a “memória da Europa”, Francisco citou o texto do juramento de Hipócrates para afirmar que a “vida é um direito”, criticando o que denominou de “cultura do descarte”, em particular relativamente aos mais velhos e às crianças por nascer.

A viagem do Papa prossegue até segunda-feira, incluindo este domingo uma passagem pela ilha de Lesbos, onde Francisco esteve, em abril de 2016, para visitar um campo de refugiados.

(Com Ecclesia)