O Papa mostrou-se disponível para um encontro com o presidente russo em Moscovo, para abordar a guerra na Ucrânia, afastando para já uma eventual visita a Kiev.

“Sinto que não de preciso ir [a Kiev]. Primeiro tenho de ir a Moscovo, primeiro tenho de encontrar-me com Putin. Sou padre, também, o que posso fazer? Eu faço o que posso. Se Putin abrir a porta”, refere Francisco, em entrevista ao jornal italiano ‘Corriere de la Sera’, divulgada hoje.

O Papa indica que, 20 dias depois do início do conflito, o Vaticano enviou ao presidente russo uma mensagem, a propor esse encontro, através do secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin.

“Ainda não recebemos uma resposta e continuamos a insistir, ainda que tema que Putin não possa e não queira manter este encontro agora. Mas toda esta brutalidade, como é que não a conseguimos travar? Há 25 anos vivemos a mesma coisa com o Ruanda”, declara.

A conversa aborda ainda o diálogo com o responsável da Igreja Ortodoxo de Moscovo, o patriarca Cirilo, que apresentou “justificações” para a guerra, começada a 24 de fevereiro.

“Eu disse-lhe: irmão, não somos clérigos de Estado, não podemos usar a linguagem da política, mas a de Jesus. Somos pastores do mesmo povo santo de Deus. Para isso, devemos procurar um caminho de paz, para acabar com o fogo das armas”, refere.

Francisco destaca que o patriarca ortodoxo não se pode tornar um “acólito de Putin”, neste conflito, que tem sido justificado pela Rússia com recurso a questões culturais, religiosas e até metafísicas, como uma guerra do bem contra o mal.

O Papa retoma as explicações para o adiamento do encontro com Cirilo, que estava marcada para 14 de junho, em Jerusalém, como já tinha feito numa entrevista a um jornal argentino, a 21 de abril.

“Seria o nosso segundo cara a cara, nada a ver com a guerra. Mas agora ele também concorda: vamos parar, poderia ser um sinal ambíguo”, precisa.

Quanto à Ucrânia, Francisco recorda que enviou como seus representantes os cardeais Michael Czerny, (prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral) e Konrad Krajewski, (esmoler pontifício), os quais já se deslocaram ao território quatro vezes, além de ele próprio ter já conversado telefonicamente com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

O Papa mostra-se ainda preocupado com o pode acontecer na Transnístria, região da Moldávia controlada por separatistas pró-russos.

“Para a paz, não há vontade suficiente”, regista.

Francisco cita um encontro que manteve com Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, o qual lhe teria afirmando que os planos russos preveem que a guerra na Ucrânia termine a 9 de maio – cenário entretanto afastado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Moscovo.

“Espero que assim seja, para que também entendamos a velocidade da escalada dos dias de hoje. Porque agora não é só o Donbass, é a Crimeia, é Odessa, a Ucrânia está a ficar sem o porto do Mar Negro. Estou pessimista, mas devemos fazer todos os gestos possíveis para travar a guerra”, defende o Papa.

Francisco reflete sobre as razões que poderão ter levado o presidente russo a invadir a Ucrânia, entre elas à aproximação da NATO, e coloca reservas à opção de fornecer armamento a Kiev.

“Há interesses internacionais em cada detalhe. Não se pode pensar que um Estado livre possa fazer guerra a outro estado livre. Na Ucrânia, parece que foram outros que criaram o conflito. A única coisa que é atribuída aos ucranianos é que reagiram no Donbass, mas estamos a falar de 10 anos atrás. Esse argumento é antigo”, assinala.

O que fica claro é que há armas a ser testadas naquela terra. Os russos agora sabem que os tanques são de pouca utilidade e estão a pensar noutras coisas. As guerras são travadas para isso: para testar as armas que produzimos”.

Voltando a uma preocupação que tem marcado o seu pontificado, o Papa considera “um escândalo” o comércio de armas, ao qual “poucos” se opõem.

Francisco evoca, a este respeito, o gesto de estivadores genoveses que, “há dois ou três anos”, decidiram parar um carregamento de armas para o Iémen, a pensar nas crianças desse país.

“É uma coisa pequena, mas um gesto bonito. Deveria haver tantos assim”, diz.

Francisco considera que a Ucrânia é um “povo mártir” e justifica, com esse sofrimento, a decisão de não ler a reflexão preparada por famílias da Ucrânia e da Rússia na Via-Sacra da última Sexta-feira-Santa, no Coliseu de Roma.

A decisão, explica o Papa, foi tomada após conversa com o cardeal Krajewski, que celebrou a Páscoa na Ucrânia.

entrevista, que foi citada pelo portal de notícias do Vaticano, começa com um pedido de desculpas de Francisco, por não se levantar para receber os jornalistas.

“Tenho uma rutura de ligamentos, vou fazer infiltrações e depois veremos”, assume, destacando que este é um problema que o afeta “há muito tempo” e o impede de andar normalmente.

(Com Ecclesia)