Francisco dirigiu aos membros Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé uma mensagem de Ano Novo

O Papa recebeu hoje em audiência no Vaticano os membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, e pediu-lhes empenho redobrado a favor da paz, da defesa da dignidade humana e da preservação do planeta.

No tradicional encontro de ano novo, Francisco apelou a que os responsáveis de cada país não deixem de buscar o consenso para a resolução de conflitos nem fechem as fronteiras ou se entreguem às “novas formas de colonização ideológica, não raro desrespeitadoras da identidade, dignidade e sensibilidade dos povos”.

“Não esmoreça a vontade dum confronto sereno e construtivo entre os Estados, pois é evidente que as relações dentro da comunidade internacional e o próprio sistema multilateral no seu conjunto estão atravessando momentos difíceis, com o ressurgimento de tendências nacionalistas, que minam a vocação de as organizações internacionais serem espaço de diálogo e encontro para todos os países”.

“Convém que as personalidades políticas escutem as vozes dos seus povos e busquem soluções concretas para promover o seu maior bem possível”, frisou esta manhã o Papa argentino, perante representantes de 185 nações com as quais o Vaticano mantém relações diplomáticas.

Ao longo do seu discurso, Francisco sublinhou desafios que se mantém em 2019, e diante os quais a Igreja Católica, mas “também a comunidade internacional, com as suas organizações, é chamada a dar voz a quem não tem voz”.

Como os conflitos na Síria, que já dura desde 2011, com o custo de centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados e refugiados.

O Papa reforçou o seu “apelo à comunidade internacional a fim de favorecer uma solução política para um conflito que, no fim, terá apenas derrotados”.

“Sobretudo é fundamental a cessação das violações do direito humanitário, que provocam sofrimentos indescritíveis à população civil, especialmente mulheres e crianças, e atingem estruturas essenciais como os hospitais, as escolas e os campos de refugiados, bem como os edifícios religiosos”, defendeu.

Francisco referiu-se à atual crise migratória, em grande parte motivada por este género de conflitos, mas também por fenómenos como a “pobreza”, a “violência e perseguição”, as “catástrofes naturais” e as “perturbações climáticas”.

Para o Papa argentino, é fundamental que os governos “facilitem medidas que permitam a integração social” dos migrantes e refugiados “nos países de acolhimento”, mas que impeçam antes de mais “que as pessoas sejam forçadas a abandonar a sua família e nação”.

“Todo o ser humano anseia por uma vida melhor e mais feliz e não se pode resolver o desafio da migração com a lógica da violência e do descarte nem com soluções parciais”.

Ainda no âmbito da “instabilidade” no Médio Oriente, Francisco recordou a situação dos cristãos perseguidos no território, e fez votos de “que as autoridades políticas não deixem de lhes garantir a segurança necessária e todos os outros requisitos que lhes permitam continuar a viver nos países, de que são a pleno título cidadãos, e contribuir para a sua construção”.

“Além dos interesses predominantes de natureza política e militar, é preciso não transcurar também a tentativa de semear inimizade entre muçulmanos e cristãos”, sustentou o Papa argentino, que aqui se deteve um pouco para perspetivar a visita que irá fazer proximamente “a dois países de maioria muçulmana: Marrocos e Emirados Árabes Unidos”.

“Serão duas oportunidades importantes para desenvolver ainda mais o diálogo inter-religioso e o conhecimento mútuo entre os fiéis de ambas as religiões”, salientou.

Sobre o conflito entre Israel e a Palestina, o Papa desejou que em 2019 as duas partes alcancem “finalmente um acordo” que permita “dar resposta às legítimas aspirações de ambos os povos, garantindo a convivência de dois Estados e a consecução duma paz há muito esperada e desejada”.

“O esforço concorde da comunidade internacional é extremamente precioso e necessário para se conseguir tal objetivo, bem como promover a paz em toda a Região, particularmente no Iémen e no Iraque, e permitir ao mesmo tempo levar as ajudas humanitárias necessárias às populações carenciadas”, acrescentou.

A instabilidade reinante em nações ou territórios como a Ucrânia, a Nicarágua, a Venezuela, a República Democrática do Congo, a Nigéria ou na Península Coreana, também mereceram referência na mensagem de Francisco.

Sobre as relações entre as duas Coreias, que onde “têm chegado sinais positivos”, o Papa manifestou o desejo de que se “possam enfrentar as questões mais complexas com uma atitude construtiva e levar a soluções partilhadas e duradouras, bem como assegurar um futuro de desenvolvimento e cooperação para o povo coreano inteiro e para toda a Região”.

Nesta incursão pelo continente asiático, Francisco mencionou também a situação na República Popular da China, com a qual o Vaticano alcançou recentemente um acordo provisório sobre a nomeação dos bispos naquele país, tendo em vista a recuperação de uma “plena comunhão” com a Santa Sé e de uma parte da comunidade católica que atualmente está obrigada a viver a sua fé na clandestinidade.

“Que a prossecução dos contactos em ordem à aplicação do Acordo Provisório assinado contribua para resolver as questões em aberto e assegurar os espaços necessários para um gozo efetivo da liberdade religiosa”, completou.

O Papa assinalou que “repensar o destino comum” da humanidade, em causa nestes e em outros desafios, implica “também repensar a relação” da humanidade com o “planeta”.

Sobretudo depois de mais um ano marcado por “constrangimentos e tribulações indescritíveis, provocados por aluviões, inundações, incêndios, terremotos e a seca”, que “atingiram duramente” várias populações e territórios, sobretudo “do continente americano e do sudeste asiático”.

Para Francisco “é particularmente urgente encontrar um acordo na comunidade internacional” para “o cuidado do meio-ambiente e as alterações climáticas”.

“A Terra é de todos e as consequências da sua exploração recaem sobre toda a população mundial, com efeitos mais dramáticos nalgumas regiões”, explicitou o Papa argentino, que abordará em outubro durante a próxima assembleia especial do Sínodo dos Bispos, no Vaticano, a questão da Amazónia.

(Com Ecclesia)