O Papa encontrou-se hoje com responsáveis de associações de fiéis, movimentos eclesiais e novas comunidades católicas, três meses após ter anunciado novas normas para o governo destas instituições, alertando para casos de “abuso de poder”.

“Os casos de abuso de vários tipos que aconteceram nestas realidades têm sempre a sua raiz no abuso de poder. Essa é a origem: o abuso de poder. Muitas vezes, a Santa Sé teve de intervir nos últimos anos, iniciando difíceis processos de reabilitação”, admitiu Francisco, num longo discurso, divulgado pelo Vaticano após a reunião desta manhã.

A intervenção convidou os membros destas entidades a rejeitar o “desejo de poder” e a “deslealdade”.

“O nosso desejo de poder exprime-se de muitas maneiras na vida da Igreja, por exemplo, quando julgamos, em virtude do nosso papel, que temos de tomar decisões sobre todos os aspetos da vida da nossa associação, da diocese, da paróquia, da congregação. Delegamos aos outros tarefas e responsabilidades para certas áreas, mas apenas na teoria”, advertiu.

O Papa considerou que esta sede de poder representa “o início do fim de uma associação, de uma congregação”.

A 11 de junho, o Vaticano publicou o novo decreto que passa a regular o governo das associações internacionais de fiéis, tanto privadas como públicas, sujeitas à supervisão direta do Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé).

O texto apresenta como novidade, relativamente à renovação de cargos governamentais, a limitação obrigatória de cinco anos como duração máxima para cada mandato no órgão do governo central a nível internacional e um máximo de dez anos consecutivos para o exercício de qualquer cargo no referido órgão.

Francisco mostrou-se particularmente duro com os que se julgam “indispensáveis” e fazem de tudo para “ocupar cargos por toda a vida” ou decidem sobre a sua sucessão.

“Ninguém é dono dos dons recebidos para o bem da Igreja, ninguém deve sufocá-los”, realçou.

A audiência desta manhã foi promovida pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, sobre o tema “A responsabilidade de governo nas agregações laicais: um serviço eclesial”.

Além da participação presencial, alguns dos responsáveis convidados participaram online, devido às limitações impostas pela pandemia.

Francisco evocou a crise provocada pela Covid-19, especialmente nos países mais pobres, agradecendo aos movimentos católicos pela “sua solidariedade, a sua ajuda, o seu testemunho evangélico, mesmo nos meses mais difíceis”.

“Sei que muitos de vocês multiplicaram as suas ações, adaptando-se às situações concretas que tinham de enfrentar, com a criatividade que vem do amor, porque quem se sente amado pelo Senhor ama sem medida”, acrescentou.

O Papa destacou que as associações de fiéis, movimentos eclesiais internacionais e outras comunidades têm uma “verdadeira missão eclesial”, representando um “sinal claro da vitalidade” da Igreja.

“Pertencer a uma associação, a um movimento ou a uma comunidade, especialmente quando se referem a um carisma, não deve nos fechar num ‘barril de ferro’, fazer-nos sentir seguros, como se não houvesse necessidade de responder aos desafios e mudanças”, prosseguiu.

Francisco concluiu com um apelo à confiança no Espírito Santo para dar continuidade à “força apostólica e ao dom profético” das várias associações.

(Com Ecclesia)