Pelo padre José Júlio Rocha

“Os jovens de hoje gostam do luxo. São mal comportados, desprezam a autoridade. Não têm respeito pelos mais velhos e passam o tempo a falar em vez de trabalhar. Não se levantam quando um adulto chega. Contradizem os pais, apresentam-se em sociedade com enfeites estranhos. Apressam-se a ir para a mesa e comem os acepipes, cruzam as pernas e tiranizam os seus mestres.”

Ao ler este texto, temos a sensação de estar a ouvir um velho padre, rabugento e conservador, do alto de um púlpito, a vociferar diatribes contra os jovens rebeldes de há cinquenta anos atrás. Ou então um idoso moralista, daqueles que estão azedos com o mundo inteiro, a propalar a sua indignação contra as gerações que não são “do seu tempo, que é que era bom!”

Nada disso. Este texto é de Sócrates. Não o português que, apesar dos livros que alegadamente escreveu, nada terá opinado sobre as gerações mais jovens do que a sua. Falo de Sócrates, o génio grego que inaugurou uma nova era na filosofia. Este texto, portanto, deverá estar a bater os dois mil e quinhentos anos.

Temos, desta forma, a prova documental de que a juventude de hoje não é a única juventude que está perdida. Isto quer dizer que, segundo provas rigorosamente documentadas, a juventude já anda perdida há, pelo menos, dois mil e quinhentos anos.

É um descanso. Descobrimos então que o estado natural da juventude é estar perdida, ser rebelde, inconsequente, revolucionária a ponto de sempre incomodar as gerações mais antigas. Perigoso será o tempo em que as gerações novas deixarem de estar perdidas, porque isso significará que é o resto dos humanos que entrou no caminho da perdição.

Isto da juventude ser uma geração perdida é já uma questão endémica: os novos são sempre uma ameaça para o “status quo” da geração dominante. Assim como o leão adulto, macho alfa, se sente ameaçado quando o leão jovem entra no seu território, os homens adultos sentem o cheiro da ameaça, quando os irrequietos jovens ameaçam, com as suas ideias e atitudes fraturantes, a estabilidade do mundo em que vivem. Os mais velhos querem conservar, os mais novos querem mudar. Foi sempre assim, pelo menos desde Sócrates, o grego.

E nós, os chamados adultos, também já engrossámos as fileiras da juventude perdida, no nosso tempo de “teenagers” inconscientes, desafiando os nossos pais com comportamentos provocantes. Deixámos de estar perdidos quando a imensa generosidade da nossa juventude – que queria virar o mundo ao contrário – deu lugar ao calculismo da idade adulta, que reduziu o espaço do sonho ao metro quadrado que gira à volta do nosso umbigo.

A juventude de hoje, como tudo de hoje, é bastante fragmentária: há de tudo. Mas surge então a pergunta que pode vir a ser inquietante: será a generalidade dos moços e moças de hoje uma juventude rebelde, à medida das juventudes rebeldes de há trinta, quarenta ou cinquenta anos atrás, tempo do Maio de 68?

O “boom” económico dos últimos anos e a ascensão estratosférica das novas tecnologias foi de tal ordem que provocou, ao que me parece, várias e pesadas mossas na rebeldia da juventude de hoje. No meu tempo (ai esse “meu tempo” que não quer dizer senão saudades de ser rebelde), bastava-me uma nota de vinte escudos na algibeira e o futuro inteiro pela frente. Dias havia em que, como para Carlos T, parecia que o mundo inteiro se unia para nos tramar; o grupo de amigos, âncora de salvação, onde tudo se falava, tudo tinha explicação, era o lugar onde se fumava e bebia cerveja à revelia dos pais, ou onde se cantava, ao som do violão do colega mais musical, toadas revolucionárias para mudar este mundo todo. Era o tempo das paixões românticas para o resto da vida, quando ainda não percebíamos que um “flirt” dura mais tempo do que uma paixão eterna. Quase nada tínhamos, a não ser a companhia incomparável da amizade e um futuro cheio de sonhos para descobrir.

A capacidade de sonhar está, hoje, entorpecida pela satisfação imediata dos desejos e vontades. A macarrónica sociedade de consumo vai oferecendo aos nossos jovens a felicidade em pacotes: se o sonho é o desejo de algo grande que se não tem ou não se vive, então uma geração que tem tudo, a quem dão tudo, vai perdendo, por inanição, a capacidade de sonhar. A generalidade da nossa juventude é muito prática, cheia de computadores e telemóveis de última ou penúltima geração, fechada em casa ou no seu mundo virtual, onde encontrou um escape para fugir ao mundo dos outros, quando este se une para a tramar.

Se não tínhamos nada a não ser o amanhã, o contrário parece acontecer ao que fizemos dos nossos jovens, que têm tudo menos o que mais precisam: o amanhã. E os amanhãs, não só o amanhã da emergência climática mas todos os outros amanhãs, parecem obscuros e tenebrosos. É este o busílis da questão da juventude de hoje: será que os nossos jovens, iguais aos de todas as eras, deixaram, devido á conjuntura do mundo, de ser uma geração perdida como a nossa?

O próximo domingo celebra a Jornada Mundial da Juventude a nível das dioceses. Jovens cantarão ao som de violões e bandolins. Exultarão na amizade que lhes faz correr o sangue nas veias. Que terão eles a dizer de drástico, nitidamente provocador, revolucionário e “contracultural” que provoque em nós o medo da juventude que acalmámos com o vil dinheiro?

Oxalá continuemos a ter uma juventude que nos inquiete.

*Este artgo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular na rubrica Rua do Palácio.