Pelo padre José Júlio Rocha

O Loureiro nasceu pobre. O Palma nasceu rico. O Loureiro morreu pobre. O Palma morreu rico. Estamos no Alentejo dos anos cinquenta, a terra do pão e da fome, onde morreram muitos mineiros, vê lá, vê lá companheiro, vê lá… diz o Cante.

O Loureiro não era pobre por má cabeça. Era-o pelas circunstâncias da própria pobreza de que Portugal não conseguia – e ainda não consegue – sair. Era-o porque vítima das injustiças a que a Igreja chama “pecados que bradam aos céus”. E era lacaio do Palma. Cultivava uma pequeníssima propriedade, um quintal à frente do palheiro onde vivia, que o Palma lhe arrendara a troco de metade dos bens que produzisse, enquanto o Palma se refastelava em milhares de hectares e montes alentejanos. Em ano de seca, sem produção suficiente, o Loureiro não foi capaz de dar ao Palma a parte que, por execrável direito, lhe pertencia. O Palma, de imediato, tirou-lhe o direito à terra e ao pão.

Loureiro viu-se sem trabalho, sem sopas, sem pão para a família. Passou fome, com uma açorda aguada por dia, sem defesa, sem nada. A mulher envergonhava-o, quando ia à vila pedir esmola. No mais desesperado desespero, o honesto Loureiro viu-se na desonrosa situação de se juntar aos contrabandistas que roubavam produtos ao Palma para os contrabandear em Espanha. Atravessava de noite a fronteira, fugindo dos guardas, para comer o pão duro da solidão que partilhava com a família.

Loureiro ia à missa. Palma também. Loureiro ficava nos últimos lugares porque vestia mal, não dava esmolas no ofertório, não levava andores nas procissões, contrabandeava para os filhos não morrerem de fome. Palma sentava-se nos bancos da frente do templo, ele que pagara o restauro do altar da Imaculada Conceição e contribuía sumptuosamente para as expensas da paróquia. E aos domingos o pároco era sempre bem-vindo à mansão do Palma, onde almoçava lautamente. Nunca conheceu a espelunca onde o Loureiro passava fome.

O padre, nas homilias, falava do inferno, destinado aos prevaricadores, aos bandidos e contrabandistas, aos que roubavam, aos comunistas e aos que não ofereciam dinheiro aos santos. Foi então que Loureiro deixou de ir à missa, porque o inferno da eternidade certamente não seria pior do que o inferno na Terra. Inferno por inferno, qual inferno escolher?

Como não podia deixar de ser, as autoridades desconfiaram de Loureiro pelo simples facto de ele, sem emprego e sem terra, ainda poder comer. Torturaram a esposa e ela viu-se obrigada a confessar que o marido andava no contrabando. Enforcou-se no calabouço, não suportando a traição ao marido.

Palma acusou Loureiro de o roubar, de invadir a sua propriedade, ele que lhe tinha concedido um miserável quintal para se sustentar, desde que lhe pagasse metade. E impava de orgulho diante dos sermões do padre que, de batina e barrete, proclamava bem-aventurados os que doavam à sacrossanta Igreja grandes quantias dos seus bens.

Loureiro acabou os seus dias na mais miserável das misérias, sem pão, com a mulher enforcada, que nem teve direito a funeral cristão porque se suicidou, com dois filhos mirrados de fome. Palma sobreviveu na abundância e na promessa feliz de uma eternidade paradisíaca.

Loureiro é um Alentejo, é um mundo. Um mundo dos pobres de que parte da Igreja perdeu o rasto. A opção preferencial pelos pobres não pode ser apenas umas letras escritas num documento que se esvazia em boas intenções.

Agora eu: tenho uma consciência cristã. E essa bendita e tenaz consciência não me permite, de nenhum modo, dizer que pertenço a uma ala de Igreja que traiu a parábola do Bom Samaritano, do Filho Pródigo, do Pastor que vai à procura da ovelha perdida, de um Jesus que come com pobres e pecadores porque não veio para os que têm saúde mas para os doentes.

Peço desculpa, mas a minha consciência não me permite pertencer a um certo tipo de Igreja que prefere o sacrifício litúrgico à misericórdia, o apedrejamento da adúltera ao seu perdão, o castigo à compaixão, os ricos doadores à viúva pobre, as pompas rituais ao Jesus que nasceu numa manjedoura porque não havia lugar para Ele.

Peço desculpa, mas não consigo aceitar um estilo de Igreja que se satisfaz com uma esmola, perante um Jesus para quem os cegos veem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. Não consigo imaginar uma Igreja de faustos banquetes, quando ao pobre Lázaro lhe sobram as lambidelas dos cães. Envergonho-me só de imaginar que a Igreja pode ter perdido o rasto dos pobres e dos excluídos.

Não. Não sou padre vermelho. Mas, se mo chamarem, antes isso do que não ter cor nenhuma, antes isso do que não me comprometer com a mensagem dos grandes profetas do Antigo Testamento e, sobretudo, de Jesus. Se há medo que me desassossega a alma, é o de não ser fiel ao Evangelho.

Não tenho uma Igreja minha. A Igreja é de Jesus. É a Igreja da fraternidade, como escreveu, e com destemida razão, Francisco, o Papa.

O Amor de Deus não se esgota nas celebrações nem nas liturgias. A Igreja também não: é um compromisso concreto com a humanidade que Deus quer salvar. A começar, sempre, pelos mais desfavorecidos. Isto não é política: é cristianismo.

Só a Igreja nos pode salvar. A Igreja pobre com os pobres, que suja os pés na lama onde os excluídos habitam.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira, no Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio