Por Carmo Rodeia

Nem sempre a vida corre como desejaríamos e, mesmo para quem não seja muito calculista, e não perca muito tempo a fazer projetos para um amanhã que há de vir depois de hoje, que já custa tanto a viver, é expectável que, de vez em quando, se pense no que está para além desta vida. E para quem é crente há de ser sempre o Céu, um lugar de vida boa, sem que isso nos desresponsabilize de fazer por esta vida, enquanto por cá andamos, neste burgo mais terreno, procurando antecipar a vida boa do reino. Não só a nossa como a dos outros.

Mas será que essa vida é para todos ou só para alguns eleitos? Será que a entrada no Céu depende do que faço na terra? Enfim, quanto “custará” um “bilhete” para o Céu? E já agora para o inferno, haverá diferenças?

Conta-nos uma velha lenda chinesa que um discípulo perguntou uma vez ao mestre:“– Mestre, qual é a diferença entre o céu e o inferno? O Mestre respondeu:– Ela é muito pequena e contudo com grandes consequências. Vi um grande monte de arroz. Cozido e preparado como alimento. Ao redor dele muitos homens. Famintos, quase a morrer. Não podiam aproximar-se do monte de arroz. Mas possuíam longos palitos de 2 a 3 metros de comprimento e assim apanhavam o arroz. Mas não conseguiam levá-lo à própria boca, pois os palitos eram muito longos. Então, famintos e moribundos, juntos mas solitários permaneciam, com uma fome eterna, diante de uma fartura inesgotável. E isso era o inferno.

Vi outro grande monte de arroz. Cozido e preparado como alimento. Ao redor dele estavam igualmente muitos homens. Famintos, mas cheios de vitalidade. Também não podiam aproximar-se do monte de arroz. Mas possuíam longos palitos de 2 a 3 metros de comprimento. Apanhavam o arroz. Mas não conseguiam levá-lo à própria boca, porque os palitos, eram muito longos, davam o arroz uns aos outros. E assim matavam a sua fome insaciável. Numa grande comunhão fraterna. Juntos e solidários. Gozando a excelência dos homens e das coisas. E isso era o céu.”

Esta semana, no exercício da minha atividade em Fátima, falei com uma senhora que é cuidadora informal de um irmão, com uma doença psiquiátrica, que a absorve o dia inteiro pois o irmão não tem qualquer autonomia, mesmo quando compensado quimicamente. Já tinha sido cuidadora informal da mãe depois desta ter sofrido uma fractura do colo do fémur. Dizia-me com os olhos marejados de lágrimas, que teimavam em não cair, como se a face as rejeitasse num pudor indescritível, que Deus lhe tinha confiado esta tarefa e que a iria levar até ao fim. Do irmão ou dela, não percebi, tal era o grau de exaustão em que se encontrava. A única exasperação que lhe encontrei foi quando perguntei se não tinha ajudas. Respondeu-me com alguma amargura que eram seis irmãos, mas só ela- mulher- tinha a tarefa de cuidar deste, com mais limites. Não sei se a exasperação era cansaço pelo trabalho árduo da dedicação ou tristeza e revolta por ver que outros não tinham nem tempo nem disponibilidade para atender o mais vulnerável. Ou se era mesmo uma resignação assumida perante a inevitabilidade da falta de escolha: ou era ela ou não era ninguém… Da família, bem entendido, pois há sempre o recurso à ajuda institucional.

O dia-a-dia desta senhora não há de ser muito diferente do de milhares de outros cuidadores. Estima-se que o nosso país seja o que tem a maior rede de cuidadores informais. Dados do final do ano passado davam conta de que haverá 827 mil pessoas que dependem de cuidadores informais, na esmagadora maioria mulheres. São doentes crónicos, idosos, pessoas com deficiência e fortemente limitadas, que ao serem tratados por estas pessoas poupam ao erário publico quase 350 milhões de euros por ano.

Não me parece que a minha questão filosófico-teológica inicial ocupe muito tempo a esta senhora. Até porque o tempo é precioso para quem cuida. Mas sem se dar conta, se calhar, nem se questionar ou importar sobre o seu destino final, se vai para o Céu ou para o inferno,  nesta vida ou na outra, tem a consciência ética perfeita: “eu sou, porque nós somos”, na expressão que indica o caminho ao encontro do próximo e representa uma regra de vida baseada na compaixão. Isto não significa deixar de pensar em si própria, mas acima de tudo, colocar-se ao serviço do outro, mesmo quando estamos cansados; mesmo quando parece que já não temos nem força nem disposição; mesmo quando temos a nossa vida, a vida da nossa família nuclear, dos nossos filhos e dos nossos netos.

“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” e “em mim descansarão os que andam cansados e oprimidos”. Se calhar o preço do bilhete para o Céu, o reino da vida boa, há de ser o da disponibilidade. E é na liberdade da escolha entre estar disponível ou não estar que também se joga a diferença entre o Céu e o inferno. Na nossa relação com os outros. E cá bem nesta vida, sem esperar pela outra que há de vir.