Por Renato Moura

Um turista que observasse o comportamento do actual Presidente da República pensaria que vigora um regime presidencialista, com um Chefe de Estado simultaneamente Chefe do Governo. O Presidente fala permanentemente de tudo, das suas funções e dos demais factos com que é confrontado. Não fora a cobertura que Marcelo garante ao Governo e já o PS e os seus companheiros de suporte se sentiriam afrontados e estariam a desancá-lo. Do povo, a maioria ainda desculpa um Marcelo popularucho, pois é melhor que um Cavaco sobranceiro. A aceitar o ditado, no meio é que estaria a virtude!

De Cavaco Silva jamais se esquecerá que ele considerava os Secretários de Estado como uns ajudantes dos ministros; pela Constituição são membros do Governo! Será por isso que algum presidente de câmara também toma os vereadores como simples ajudantes? Nalgum correrá ainda daquele sangue laranja? E será por isso que, para alguns, o presidente se reserva para satisfazer os pedidos dos eleitores e os vereadores servem de ajudantes para comunicar o que é de rejeitar e ainda sujeitos à afronta de o presidente posteriormente reverter a negação?!

Há dias a Ilha do Pico recebeu uma belíssima notícia: finalmente vai-se proceder “às diligências necessárias para a realização de uma avaliação das condições de operacionalidade do aeroporto do Pico e das possíveis soluções para a resolução de questões de ordem técnica e operacional, que condicionem ou impeçam a plena utilização do aeroporto, incluindo a ampliação da pista”; a que em Julho de 2017 não estava prevista! Será pelas 2351 assinaturas da petição ou dos metros da altura, que desta feita a Ilha do Pico deixará de ser das «ilhas de baixo», ou das «ilhas pequenas» (que em autonomia e esforço de desenvolvimento nenhumas o deveriam ser)?

Não surpreendeu que a notícia relevante fosse dada à comunicação social, de via voz, pelo Presidente do Governo, pois foi tal qual como as inaugurações importantes que sempre lhe cabem. A forma é que foi lamentável. Do alto da sua presidência anunciou que foi “dada uma orientação por mim, à Sr.ª Secretária Regional dos Transportes e Obras Públicas, no sentido de tomar as diligências…”, desfiando as minudências da ordem: estudo técnico, diagnósticos, histórico, previsão de impacto, resposta ao custo/benefício, financiamento, etc., não deixando à «ajudante», que é membro do Governo, nada para a competência que legalmente lhe cabe! A bondade da notícia não merecia a arrogância de poder.

As afrontas são moralmente reprováveis; também na política.