Por Renato Moura

Já tudo foi dito e escrito sobre Mário Soares. Frontal como ele era, se pudesse ouvir certamente preferiria não receber elogios rasgados e incondicionais daqueles que não o fizeram com sinceridade. E bem melhor seria se muitos dos louvores, póstumos sinceros, tivessem sido antecipados para o tempo em que ele os poderia sentir como agradecimento, nomeadamente pelo que fez como defensor e construtor da liberdade e da democracia.

Quem interveio de forma tão intensa e determinante na vida política e por um período tão longo, deixou marcas indeléveis na história de Portugal, muitas indiscutivelmente positivas, a par de erros e imperfeições humanamente naturais.

Muito para além da justiça do louvor ao homem dotado de intuição política notável, importa reter os bons exemplos e utilizar esse legado para edificação futura da sociedade.

Entre outras qualidades merece especial realce a coragem de lutar com tenacidade por aquilo em que acreditava, não só durante a ditadura e apesar das sucessivas prisões ou deportação, mas também em plena democracia. Não receou empreender lutas contra forças que estavam a ser dominantes e poderiam ter mudado completamente o rumo de uma pretendida democracia ocidental.

No seio do seu próprio partido nunca deixou de afirmar as suas convicções relativamente às posições políticas, mesmo quando os seus mais próximos maioritariamente defendiam o contrário, assumindo a luta por aquilo em que acreditava, até à ruptura e saída.

Releva da sua vida o facto de acreditar sempre que em política a luta persistente permitiria a vitória e de que valia a pena lutar pelos objectivos, mesmo perante o isolamento na defesa das causas, ou quando as sondagens eram péssimas. Honrou a democracia demonstrando que em política é tão digno perder como ganhar.

É certo que teve a sorte de estar presente num momento decisivo da vida nacional, mas a verdade é que soube aproveitar as circunstâncias, demonstrou uma vibrante confiança, mas também batalhou incansavelmente, socorrendo-se de todos os meios ao seu alcance, atitudes que foram decisivas para atingir altos objectivos. Na política activa ou depois dela, nunca teve medo de intervir, louvou e criticou, nunca se protegeu na inacção ou na cobardia do silêncio.

Um dos exemplos edificantes, que considero absolutamente relevante, é o facto de ter exercido a actividade política por gosto, com alegria, de se ter batido para ela ser considerada uma actividade nobre e de se ter esforçado para os políticos serem considerados com dignidade.