Por Tomaz Dentinho

Na parábola, o próximo do Samaritano é o que foi assaltado no caminho, e o próximo do assaltado é o Samaritano. De fora desta relação de proximidade, compaixão, misericórdia, amor e gratidão ficaram o Sacerdote e o Levita que, embora estivesse culturalmente, profissionalmente e até fisicamente (porque chegaram antes) mais próximos do assaltado do caminho de Jericó acabaram por ficar mais distantes da oportunidade de estar perto do pequeno grande Deus das bem-aventuranças.

Na Encíclica Laudato Si o próximo continuam a ser pessoas que, por mais longe que estejam cultural, profissional e fisicamente se tornam próximas pela compaixão, misericórdia, amor e gratidão. No entanto essas pessoas concretas estão a ser assaltadas pelo uso irresponsável que fazemos do ambiente onde vivem. As pessoas e os sítios da “irmã Terra clamam contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou”. Deus criou o mundo e colocou-o à nossa disposição para o gerir e conservar, não para o abusar motivados pelo lucro e pela avareza, perpetuando a pobreza, a guerra e a delapidação do que nos foi confiado.

Outras culturas e religiões abordam os problemas ambientais. Os Hindus crêem que todas as criaturas são filhas de Deus e não olham o meio ambiente como separado das outras esferas da atividade humana. Os Budistas consideram que são obrigações do Governo a proteção da Fauna e da Flora. Os Siques vêm o ambiente na perspetiva do desenvolvimento humano e da justiça social e no Islão assumem que não há alegria na vida se não houver ar puro, água abundante e pura e terra fértil. Todos estes aspetos estão presentes na Encíclica da Igreja mas reforçam-se na consciência de culpa e na liberdade e consequência dos gestos de amor.

Como diz a Igreja da Índia a Encíclica Laudato Si desafia a nossa fé, perturba a nossa espiritualidade, excita a nossa consciência, eclipsa o nosso pensar, encoraja a nossa resposta e aumenta o nosso compromisso. É um chamamento a reconhecer o terreno da nossa espiritualidade, a humildade de aprender de tantas fontes de sabedoria, o reconhecimento de que todos nós criámos uma situação ferida que todos nós precisamos curar e uma lembrança da nossa obrigação para com os mais pobres porque são os mais afectados. Como diz Fr. De Souza, SJ, os mais novos têm a sabedoria de nos revelarem pecados contra o ambiente quando desperdiçam água; e – relembra – são essas atitudes de desperdício que prejudicam os mais pobres.

Quem são as Pessoas e as Terras próximas? O Samaritano não tratou apenas de cuidar do Homem e deixá-lo no caminho, ou de lhe dar uma esmola esperando que o assaltado tratasse de si; mais do que isso, recorreu ao estalajadeiro e, através do dinheiro que lhe deu, mobilizou toda a sociedade para ajudar o assaltado com consequência. No Açores, a Terra Próxima que clama contra os males que lhe fazemos são as Sete Cidades, onde a má afetação de direitos de propriedade da terra e da água aceleram a degradação da Lagoa e perpetuam a pobreza das pessoas. Nos Açores a Terra Próxima está nas terras piscatórias onde a má afectação de direitos de propriedade da pesca delapidam os recursos e perpetuam a pobreza. Nos Açores a Terra Próxima está em torno nas ribeiras obstruídas e nas bacias sem capacidade de retenção da água, o que leva a enxurradas e destruição. Quem são os próximos destas situações? Quantos passamos ao lado? Como diz São Francisco de Assis: “O nosso caminhar é a nossa pregação.”